A extrema direita ampliou sua força no Congresso e saiu na frente na votação presidencial, cenário que, para os cientistas políticos Paulo Roberto de Sousa e Paulo Niccoli Ramirez, exigirá uma mudança na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Com 98,97% das urnas apuradas pelo TSE, Flávio Bolsonaro tinha 47,22% dos votos, contra 44,94% de Lula. A disputa está prevista para 25 de outubro.
Sousa afirmou que o resultado consolidou a extrema direita como principal força política do país. Na Câmara, o PL aparecia com 123 deputados eleitos, enquanto a União Progressista tinha 86 e a federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, somava 85. No Senado, a projeção indicava 30 cadeiras para o PL e 9 para o PT.
Congresso e governabilidade
Para Sousa, os dados reduzem a possibilidade de o centrão atuar como um bloco independente capaz de equilibrar governo e oposição. União Progressista e Republicanos, segundo a avaliação apresentada, tendem a formar uma maioria significativa com o PL, embora o partido não alcance maioria absoluta em um sistema presidencialista de coalizão e pluripartidário.
A composição do Congresso, ainda sujeita a alterações durante a apuração, pode dificultar a governabilidade de Lula caso ele vença o segundo turno. Por isso, Sousa defendeu uma campanha baseada no confronto direto entre os projetos políticos e na apresentação de uma perspectiva de futuro ao eleitorado.
O cientista político também avaliou que o país se mostrou conservador, mas ressaltou que os eleitores de Flávio Bolsonaro não necessariamente concordam com todas as posições associadas a ele. Entre os temas citados estão sexualidade, questões morais, a percepção de que programas sociais estimulariam a falta de disposição para o trabalho e uma visão autocentrada do mundo.
Niccoli afirmou que Lula precisará adotar uma postura mais agressiva no segundo turno. Ele defendeu uma mudança mais profunda no discurso petista, descrita como a construção de um “Lula do Velho Testamento”, e sustentou que o campo progressista deveria formar uma frente ampla contra o projeto de Flávio Bolsonaro.
Escala 6×1 pode virar primeiro teste
A proposta de redução da jornada de trabalho e de fim da escala 6×1 foi apontada por Sousa como um dos primeiros embates da nova etapa eleitoral. Davi Alcolumbre mencionou a possibilidade de que o texto fosse pautado no Senado na terça-feira.
Na avaliação do cientista político, uma votação poderia criar constrangimento para partidos alinhados a Flávio Bolsonaro que eventualmente apoiassem ou rejeitassem a medida. Uma derrota da proposta, por outro lado, poderia ser usada pela oposição para afirmar que Lula perdeu capacidade de governabilidade.
Sousa considerou que o episódio mostraria como funcionará a correlação de forças no segundo turno, especialmente nas negociações entre Lula, Flávio Bolsonaro e o presidente do Senado.
Temas defendidos por Niccoli
Niccoli afirmou que a campanha deveria apresentar a eleição como uma disputa sobre democracia, soberania nacional e política econômica. Ao desenvolver sua avaliação, associou Flávio Bolsonaro ao campo da extrema direita e mencionou as relações dele com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e com o Banco Master, além da proximidade entre a família Bolsonaro e o governo de Donald Trump.
O cientista político declarou que Flávio buscaria a Presidência para obter imunidade no caso envolvendo Vorcaro e afirmou que ele teria como objetivo transferir as riquezas brasileiras aos Estados Unidos. Também criticou a atuação do governo Trump em relação aos direitos humanos, aos migrantes e a países como Venezuela e Irã.
Niccoli concluiu que Lula deveria explicitar os riscos que, em sua avaliação, estariam associados ao projeto de Flávio Bolsonaro e transformar essas diferenças no centro da campanha do segundo turno.


