A poucos dias do primeiro turno, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alertou delegações da França e da Alemanha sobre tentativas de interferência nas eleições brasileiras atribuídas aos Estados Unidos e à Rússia.
Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP), a atuação do governo de Donald Trump já seria identificável sem o alerta da Abin. Ele relaciona essa interferência ao uso deliberado das big techs e à atuação de apoiadores de Jair Bolsonaro, que, segundo sua avaliação, promoveriam a distorção da realidade em uma dinâmica semelhante à eleição de Trump.
Ramirez também mencionou um convite feito pelo consulado estadunidense em SP a influenciadores. De acordo com o analista, posteriormente teria ficado claro que a iniciativa buscava influenciar o comportamento desses participantes para retirar votos de Lula. Ele associou ainda as investidas ao tarifaço e ao impasse envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).
Na avaliação do cientista político, a movimentação teria como objetivo favorecer Flávio Bolsonaro e estaria ligada não apenas à proximidade ideológica entre Trump e o bolsonarismo, mas também ao interesse dos Estados Unidos em negociar terras raras e petróleo brasileiros. Ramirez citou o lawfare e a Lava Jato como parte de uma estratégia que usaria o Judiciário contra governos não alinhados aos Estados Unidos, com apoio do Congresso, e afirmou que esse movimento alcançaria outros países da América Latina.
Debate presidencial
Sobre a ausência de Lula no debate entre candidatos à Presidência na Globo, marcado para a próxima quinta-feira (1º), Ramirez disse que a participação poderia gerar desgaste na reta final. Segundo ele, quatro candidatos poderiam concentrar os ataques em Lula, transformando o encontro em uma ação contra a campanha, e não em um debate.
O analista também avaliou que declarações mais incisivas de Lula nas últimas semanas poderiam afastar eleitores moderados, embora eventualmente atraíssem votos. Ele estimou que os indecisos representam de 6% a 9% do eleitorado e relacionou a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida à possibilidade de parte deles votar em Lula.
Para Ramirez, a ausência do presidente faria com que a direita concentrasse os confrontos entre seus próprios candidatos, sem a participação de Lula.


