BELÉM — A campanha presidencial passou a incorporar com mais força questões morais depois que o caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida atingiu a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O episódio também levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a reafirmar sua defesa da liberdade religiosa durante uma agenda em Belém, na noite de segunda-feira (28). Na ocasião, Lula declarou que “ninguém vai avacalhar Nossa Senhora Aparecida”.
Para o especialista em comunicação política Amauri Chamorro, parte do debate eleitoral concentrado em Brasília (DF) não corresponde às principais preocupações de muitos eleitores. Na avaliação dele, temas ligados à família, à fé, à cultura e à comunidade têm peso maior na vida cotidiana e ajudam a explicar como o aspecto moral entrou na disputa.
Fé, ataques religiosos e voto
Chamorro afirmou que a reação de eleitores evangélicos alinhados ao bolsonarismo não é inesperada. Ele citou episódios de ataques a símbolos religiosos e a espaços de religiões de matriz africana, além do caso em que um pastor chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.
Para o analista, a defesa da santa não representa, necessariamente, uma preocupação religiosa isolada. Em alguns casos, expressa uma rejeição à atitude de quem ataca símbolos considerados importantes por parte da população. Chamorro também avaliou que o eleitor evangélico radical tende a manter o apoio a Flávio Bolsonaro independentemente de suas ações.
O especialista relacionou ainda a disputa atual à narrativa construída durante a Lava Jato, que associou a corrupção ao PT. Segundo ele, essa imagem continua influenciando apoiadores da família Bolsonaro e também o eleitorado de centro. Ao mesmo tempo, afirmou que o debate eleitoral precisa abordar declarações violentas atribuídas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, incluindo a frase dirigida à deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) quando ele ainda era deputado.
Revelações sobre Flávio Bolsonaro
Na terça-feira (29), vieram a público informações sobre Alexandre Ferreira Dias Santini, ex-sócio e antigo amigo de Flávio Bolsonaro. Os registros indicam que Santini teria pago despesas pessoais do senador em troca de favores políticos. Entre os itens mencionados está um relógio Rolex de ouro branco avaliado em R$ 305 mil.
As conversas também registram uma suposta atuação de Flávio Bolsonaro junto ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), além de referências a festas com garotas de programa. O possível efeito político das revelações, segundo Chamorro, dependeria da confirmação dos fatos e da circulação do conteúdo nas redes sociais até o dia da eleição.
O especialista avaliou que a repercussão poderia favorecer Lula e disse que o presidente estaria próximo de vencer no primeiro turno. Na análise apresentada, essa possibilidade também estaria relacionada à decisão das bets. O programa eleitoral citado permanece no ar até 1º de outubro, em duas edições de segunda a sexta-feira: das 12h25 às 14h e a partir das 17h, pela Rádio Brasil de Fato, em 98.9 FM na Grande São Paulo.


