Gestores de Bradesco Asset, TAG Investimentos e do fundo Zaftra avaliam que as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não apresentaram propostas fiscais claras para os próximos quatro anos. A ausência de uma agenda para despesas, orçamento e trajetória da dívida aparece como o principal descompasso entre as demandas do mercado e o debate eleitoral.
A avaliação foi apresentada durante o TAG Summit, realizado na terça-feira, 29 de setembro. Além da questão fiscal, os gestores discutiram a trajetória da Selic e a possibilidade de valorização de ativos caso o cenário político permita uma redução dos juros.
Ajuste fiscal no centro das incertezas
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, afirmou que a agenda fiscal dificilmente ocupará espaço relevante na disputa presidencial. Para ele, o tema não oferece retorno eleitoral aos candidatos. Ainda assim, a gestora trabalha com a hipótese de que algum pacote de ajustes seja adotado a partir do próximo ano, independentemente do vencedor.
A necessidade desse pacote, segundo Funchal, estaria relacionada ao risco de desorganização da economia, com pressão sobre juros e câmbio. Entre as alternativas mencionadas está a mudança nas regras das despesas obrigatórias, que tornam o orçamento rígido. Na avaliação do executivo, a solução exigiria mais flexibilidade orçamentária.
André Leite, CIO da TAG Investimentos, identifica cenários distintos entre os dois candidatos. Para Flávio Bolsonaro, a gestora espera um ajuste fiscal mais profundo. No caso de Lula, porém, Leite considera a perspectiva indefinida.
Maurício Moura, sócio do fundo Zaftra, também criticou a falta de clareza dos dois campos. Na avaliação dele, o eleitor poderá chegar à urna sem conhecer o projeto de Brasil defendido pela situação ou pela oposição.
Segundo turno é o cenário-base, mas há hipótese de antecipação
O cenário considerado mais provável pelos gestores é um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Moura, no entanto, chama atenção para a possibilidade de uma definição ainda no primeiro turno. Ele relaciona essa hipótese a uma eventual abstenção maior, que reduziria os votos válidos, e à concentração do antipetismo na reta final da campanha.
Esse movimento poderia levar eleitores de candidatos menores para o principal nome da oposição e alterar de forma significativa a distribuição dos votos. Para Moura, a possibilidade de vitória da oposição no primeiro turno é maior do que em anos anteriores.
Leite também trabalha com um segundo turno, mas considera que os mercados estão pouco posicionados para uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Segundo ele, esse movimento teria sido precificado apenas parcialmente, entre 15% e 20%.
Em um cenário de vitória de Flávio, o CIO da TAG vê potencial de melhor desempenho ajustado ao risco para a bolsa e para os juros reais longos, representados pelas NTN-Bs. Com Lula, esses ativos já estariam negociados em níveis de preço estressados e sofreriam menos do que o real, apontado como o ativo mais vulnerável.
Juros dependem da inflação e do governo eleito
A liberação de valor nos ativos, contudo, dependeria da trajetória dos juros. Leite considera necessário que a Selic fique abaixo de dois dígitos para que investidores deixem o CDI em busca de outras alternativas.
O gestor demonstra ceticismo em relação ao atual ciclo de cortes e projeta a possibilidade de uma nova alta dos juros caso Lula forme um novo governo. Ele observa que houve cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual (p.p.), ritmo que considera mais brando do que o usual após o início de um ciclo de redução.
Funchal também vê pressões de alta para a inflação. Entre os riscos citados estão um possível choque de El Niño, o fim da escala 6x1 e o petróleo. Apesar disso, a Bradesco Asset projeta queda dos juros em 2027. O executivo considera plausível a avaliação do Banco Central de que a desaceleração da economia no próximo ano possa permitir a continuidade dos cortes, mesmo diante das pressões contrárias.



