BELO HORIZONTE — A situação fiscal deverá obrigar o próximo governo a promover um ajuste das contas públicas a partir de 2027, inclusive se Luiz Inácio Lula da Silva for reeleito. Para Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia Group, a principal dúvida será o tamanho e o alcance das medidas, em um cenário de desconfiança do mercado em relação ao governo atual.
A avaliação foi apresentada no sábado, 26 de setembro, durante o Inter Invest Summit 2026. Garman afirmou que o custo econômico e político de não agir aumentará rapidamente, o que pode reduzir o apoio ao governo depois da eleição. Embora os candidatos não costumem mencionar a responsabilidade fiscal em declarações públicas, ele disse que há um diagnóstico semelhante nos bastidores das campanhas.
Lula teria de recuperar a confiança do mercado
No caso de uma nova vitória de Lula, o desafio seria maior do que simplesmente executar um ajuste. O presidente também teria de reconstruir a credibilidade perdida junto aos investidores, em razão do aumento dos gastos ao longo do governo. Garman afirmou que as expectativas do mercado são baixas quanto à apresentação de um plano fiscal considerado crível.
Nesse cenário, o diretor da Eurasia Group prevê depreciação do câmbio real e alta das curvas de juros futuros. Mesmo com algum ajuste, ele não espera que um eventual novo governo Lula adote uma orientação mais fiscalista. Na avaliação dele, a equipe reconhece a necessidade de agir, mas a correção provavelmente seria menos ampla do que a esperada em um governo de Flávio Bolsonaro.
A questão central, resumiu Garman, é se Lula conseguiria reverter a crise de credibilidade. Para ele, a reorganização das contas será inevitável, mas sua dimensão ainda dependerá do projeto apresentado pelo vencedor da eleição.
Expectativas diferentes para Flávio Bolsonaro
Sobre o senador e candidato pelo PL, Garman afirmou que existe um benefício inicial da dúvida por se tratar de um nome da oposição. Ele também mencionou sinais de que a equipe de Flávio Bolsonaro pretende atuar de maneira mais incisiva nas contas públicas e defende uma reforma fiscal ampla logo depois da eleição.
Uma pesquisa da Eurasia com clientes brasileiros e internacionais indicou expectativa de valorização do real e queda na curva de juros em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. A projeção para o câmbio ficou entre R$ 4,50 e R$ 5. O apoio inicial, porém, dependeria da adoção de medidas concretas. Sem resultados, a recepção positiva dos investidores poderia desaparecer.
Para Garman, uma reforma fiscal capaz de gerar confiança abriria mais espaço para o Banco Central. A pergunta, segundo ele, é se o ajuste será suficiente para reduzir a taxa de juros.
No horizonte de médio e longo prazo, o diretor vê oportunidades para o Brasil em um mundo de maior fragmentação geopolítica e de busca por menor dependência de China e Estados Unidos. Agro, minerais, petróleo e energia de menor emissão de carbono poderiam ganhar valor. A transformação dessa vantagem em investimentos, contudo, dependeria da redução dos juros e da reorganização das contas públicas.
Garman afirmou que o país tem posição geográfica favorável e ativos com perspectiva de valorização nos próximos dois a cinco anos, mas destacou que, no curto prazo, a atenção continuará concentrada na taxa de juros.



