SÃO PAULO — A descoberta de uma jiboia-do-Ribeira viva em Sete Barras, no Vale do Ribeira, em outubro de 2016, encerrou um intervalo de mais de 60 anos sem registro de um exemplar vivo da espécie. O animal, encontrado na comunidade Guapiruvu, foi batizado de Dona Crô, nome escolhido por um menino da região.
A espécie, descrita em 1953 pelo herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan, é considerada uma das serpentes mais raras do mundo. Antes de Dona Crô, apenas seis outros espécimes haviam sido encontrados desde a descrição, todos mortos. A mobilização do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR), com comunicação e educação ambiental junto aos moradores, resultou em 20 novos registros desde 2016.
Como a espécie foi reencontrada
Dona Crô foi localizada depois de um trabalho de comunicação com moradores. O aviso chegou a Bruno Rocha, 43, biólogo e cofundador do PJR, que acompanhou a identificação do animal. A serpente recebeu um aparelho de radiofrequência para monitoramento, mas o acompanhamento terminou quando a bateria acabou. A expedição inicial e o equipamento tiveram apoio de um projeto coordenado pela curadoria da Coleção de Herpetologia do Museu de Zoologia da USP (MZUSP).
Outra fêmea, chamada Esperança, foi encontrada em Guapiruvu durante a pandemia de Covid-19. Depois dela, moradores localizaram o macho Ribeiro, uma fêmea “idosa” chamada Juquiá e um macho jovem sem nome, acompanhado dentro de uma área natural.
Para Daniela Gennari, 37, bióloga e técnica da Coleção de Herpetologia do MZUSP, os registros podem ajudar a esclarecer aspectos ainda pouco conhecidos da espécie, como a maturação sexual, o número de filhotes por gestação e os padrões de atividade. A jiboia passa quase todo o tempo no topo das árvores e se desloca lentamente tanto pelas copas quanto pelo chão, mas ainda não se sabe o que provoca sua descida.
Educação ambiental e conservação
A jiboia-do-Ribeira é uma serpente não peçonhenta da família dos boídeos, grupo que também inclui jiboias e sucuris. De hábitos arborícolas, é endêmica da mata atlântica do Vale do Ribeira, região que reúne 22 municípios no sul do estado de São Paulo.
A espécie tem ventre amarelo e escamas dorsais com padrão triangular negro e marrom. Sua semelhança com a jararacuçu, serpente peçonhenta comum na região, alimentava o receio de moradores. Uma diferença destacada pelos pesquisadores são as fossetas labiais, pequenos orifícios na região da boca que a jiboia-do-Ribeira possui e a jararacuçu não.
Com as ações do projeto, parte da população passou a reconhecer os animais e a avisar os pesquisadores quando eles aparecem. Rafael Guimarães, diretor técnico da Preservalle, empresa de soluções ambientais e parceira do PJR, atribui os achados à participação comunitária: “as pessoas começam a se indagar ‘será que é [a cobra]?’”.
O Vale do Ribeira concentra uma das maiores áreas remanescentes de mata atlântica no estado, mas sofre pressão da devastação e do aumento da atividade humana, especialmente pela agricultura e pela construção de rodovias. A jiboia-do-Ribeira está classificada como ameaçada de extinção na Lista Vermelha da Fauna.
Por ocupar uma posição de predadora de topo, a espécie também é afetada pelas mudanças ambientais. Sua preservação contribui para a manutenção das condições do ambiente e para a conservação de outras espécies, segundo a avaliação apresentada no projeto.
Próximos passos
Após dez anos de atuação, o PJR passou a integrar o Instituto Conservação Brasil. A parceria busca oferecer maior segurança jurídica ao projeto e auxiliar na obtenção de recursos financeiros. A organização pretende ampliar as ações para todos os municípios que fazem parte do Vale do Ribeira e transformar a jiboia-do-Ribeira em espécie símbolo da região.
Nondas Okiama, da ONG Instituto Conservação Brasil, afirma que o projeto se diferencia por trabalhar com uma cobra como espécie-símbolo, em vez de animais geralmente associados à conservação por serem considerados bonitos ou carismáticos.
A fêmea Juquiá está temporariamente sob os cuidados do Instituto Rio Itarari, em Pedro de Toledo. Thiago Barbosa, produtor rural e dono da fazenda onde ela foi encontrada, defende a participação conjunta de pesquisadores e comunidades na preservação da espécie e dos demais animais da região.
O governo do estado de São Paulo informou, por meio da Fundação Florestal e da Divisão de Biodiversidade e Biotecnologia, ligadas à Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), que desenvolve ações de conservação da biodiversidade e dos habitats naturais no Vale do Ribeira. A estratégia, segundo o órgão, inclui pesquisa e monitoramento de indivíduos em vida livre.
Para os próximos dez anos, Daniela Gennari aponta a obtenção de recursos como o principal desafio. Desde o início, parte dos custos foi retirada do próprio bolso dos envolvidos. Mesmo com resultados científicos e socioambientais abaixo do esperado, ela afirma que a relação das comunidades com a espécie já mudou e que o projeto pretende ampliar essa transformação.


