BRASÍLIA — Autoridades brasileiras de inteligência informaram a representantes da França e da Alemanha sobre uma suposta interferência dos Estados Unidos e da Rússia nas eleições do Brasil. A reunião ocorreu durante uma visita de integrantes dos dois países a Brasília, em setembro, antes do primeiro turno, marcado para domingo (4).
Um relatório elaborado por um dos participantes registra que autoridades da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) “confirmaram a existência de interferência tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia”. Segundo o documento, os funcionários brasileiros disseram que a ação atribuída aos Estados Unidos teria variado “desde lawfare até uma interferência abertamente reconhecida”. Não foram apresentados detalhes sobre a suposta interferência russa.
A possibilidade de envolvimento americano aparece em meio ao apoio declarado do governo de Donald Trump a candidatos alinhados ao movimento MAGA, sigla de Make America Great Again. No Brasil, a disputa envolve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O pai do senador, o ex-presidente Jair Bolsonaro, cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Lula afirma ter alertado Trump para que não interferisse no processo eleitoral brasileiro. O Departamento de Estado dos Estados Unidos negou anteriormente qualquer tentativa de interferência, mas não respondeu ao pedido de comentário sobre o caso. A Abin e a embaixada da Rússia no Brasil também não se manifestaram. Moscou já havia negado interferência em eleições de outros países.
A visita europeia
Representantes franceses e alemães estiveram no Brasil de 9 a 11 de setembro, em uma delegação da União Europeia voltada à implementação da Lei de Serviços Digitais (DSA). A norma exige que plataformas online adotem mais medidas contra conteúdos ilegais e prejudiciais. Os Estados Unidos criticam a legislação, sob o argumento de que ela atinge injustamente as grandes empresas de tecnologia americanas.
A agenda europeia também previa a preparação de respostas coordenadas antes das eleições de 2026. Participaram representantes da Viginum, agência francesa de detecção de desinformação estrangeira, da Arcom, órgão regulador de mídia e comunicações, e da Agência Federal de Redes da Alemanha, responsável pela regulação dos setores de telecomunicações, energia, transporte ferroviário e serviços postais.
A Arcom e a Viginum confirmaram a participação de funcionários na visita. A Agência Federal de Redes afirmou que uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições alemãs não foi discutida na reunião.
Uma autoridade brasileira de alto escalão da área de segurança cibernética, que participou do encontro e falou sob condição de anonimato, afirmou que o número de ataques cibernéticos no país quase dobrou em comparação com 2025. Também teria ocorrido aumento acentuado de invasões e tentativas de phishing contra a Presidência da República. Para o funcionário, essas ações estão claramente relacionadas às eleições.


