RIO DE JANEIRO — Uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou, em 2023, a liberação de emendas parlamentares com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ). As conversas foram encontradas pela Polícia Federal em um celular apreendido durante uma investigação sobre o caso.
O repasse negociado somou R$ 199 mil e foi destinado a um projeto de futebol do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), no bairro Taquara, no Rio. A região é apontada como área de influência de Chiquinho Brazão e Domingos Brazão. O primeiro é ex-deputado; o segundo é conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Os dois foram condenados pelo STF como mandantes da morte de Marielle.
A PF identificou indícios de desvio de recursos no envio das verbas. As mensagens foram trocadas entre Calixto e Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora de Flávio. O contato do senador estava salvo no celular do miliciano como “Fafa Flávio Bolsonaro”.
O conteúdo das mensagens
Calixto pediu ajuda para obter recursos para o projeto e foi orientado pela assessora a formalizar a solicitação por email ou ofício. Depois do envio do documento, ele perguntou se poderia conseguir algum apoio durante uma viagem a Brasília. As conversas prosseguiram até março de 2024, com cobranças sobre a liberação do dinheiro e pedidos para que o senador não esquecesse o Ifop.
Em 22 de março de 2024, Calixto escreveu que havia consultado as destinações parlamentares e não encontrado recursos de Flávio para a entidade. A assessora respondeu anteriormente que verificaria a situação e que entraria em contato com ele.
Os registros também mostram um pedido de quatro ingressos para o desfile das campeãs, em um camarote na Sapucaí. Os investigadores classificaram a solicitação como vantagem indevida.
Em outra conversa, de outubro de 2023, Maria de Fátima convidou Calixto e o assessor de Chiquinho Brazão para uma cerimônia de entrega de coletes à Polícia Militar do Rio. A intenção, segundo as mensagens, era que o deputado cobrasse pessoalmente Flávio sobre a liberação da verba.
Defesas e investigação
A assessoria de Flávio afirmou que os repasses foram realizados dentro da lei e obedeceram a critérios técnicos do Ministério do Esporte. Também declarou que a entidade apresentou notas fiscais dos materiais comprados e devolveu os valores que não foram utilizados. A responsabilidade pela execução, segundo a nota, seria da entidade beneficiária.
Robson Calixto foi condenado a 9 anos de reclusão por integrar a milícia. Chiquinho Brazão e Domingos Brazão receberam, cada um, pena de 76 anos e 3 meses de prisão pela participação no assassinato de Marielle e pela chefia de uma milícia na zona oeste do Rio de Janeiro.
Em julho, a PF deflagrou uma operação para investigar suspeitas de desvios de emendas destinadas por Chiquinho Brazão a organizações não governamentais no Rio. A apuração envolve suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. De acordo com a polícia, parte dos recursos teria sido desviada por meio de pagamentos indevidos, empresas interpostas e mecanismos para ocultar a origem e o destino dos valores.
O advogado de Calixto, Gabriel Habib, não respondeu aos contatos feitos por mensagem e ligação. O representante de Chiquinho disse que não se manifestaria. A defesa de Domingos Brazão declarou que não trata desse assunto relacionado às emendas.


