O Brasil registrou 354 episódios de violência política no período anterior às eleições de 2026, o maior número dos últimos 10 anos. O levantamento foi realizado pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global e divulgado na quarta-feira (30).
Os casos ocorreram entre 28 de outubro de 2024, dia seguinte ao segundo turno das eleições municipais, e 15 de agosto de 2026, véspera do início da propaganda eleitoral. O total representa aumento de 18,4% em relação aos 299 episódios contabilizados no período pré-eleitoral anterior, encerrado em agosto de 2024. A média foi de um caso a cada 44 horas.
As ameaças foram o tipo mais frequente de violência, com 193 ocorrências. Também foram registrados 71 casos de ofensa, 51 agressões físicas, 17 atentados, 11 assassinatos, 6 episódios de criminalização e 5 invasões. São Paulo concentrou o maior número de registros, com 67 casos, seguido por Paraná, com 31, e Ceará, com 29.
A maioria das vítimas, 96,3%, já ocupava mandato ou cargo público. Mulheres cis, trans e travestis representaram 50% das vítimas. A política municipal concentrou 63% dos episódios, principalmente contra vereadores e prefeitos. Entre os 28 casos com intenção letal, 24 envolveram agentes políticos locais. O grupo inclui 10 dos 11 assassinatos e 14 dos 17 atentados registrados.
Presença de grupos criminosos e responsabilização
A pesquisa identificou indícios de atuação de facção criminosa ou crime organizado em 26 episódios, equivalentes a 7,3% do total. Os registros ocorreram principalmente no Ceará, com 12 casos, no Rio de Janeiro, com 4, e em São Paulo, com 3. Os alvos foram, em sua maioria, prefeituras e órgãos ligados à administração municipal, como secretarias.
Em Cariré, no Ceará, prefeito, vice-prefeito e vereadora foram ameaçados ao mesmo tempo. Em Meruoca, duas autoridades da mesma gestão foram ameaçadas no mesmo dia. Em Jaguaribara, prefeito e vice-prefeito receberam ameaças na mesma semana. Em Mossoró, um assessor foi assassinado e um vereador sofreu um atentado no mesmo momento e local.
Glaucia Marinho, diretora-executiva da Justiça Global, afirmou que a violência alcança pessoas que ocupam espaços de decisão e administram contratos e recursos públicos. Ela também disse que grupos criminosos e policiais aparecem entre os responsáveis pelos atos registrados.
Dos casos contabilizados, 84,5%, ou 300 episódios, foram alvo de denúncia formal ou pública. A apuração judicial ou policial estava em curso em 46 casos, o equivalente a 13% do total. Apenas 9 episódios, ou 2,5%, resultaram em punição efetiva dos autores.
Terra de Direitos e Justiça Global defenderam políticas permanentes de proteção ao exercício de mandatos, com atenção especial a vereadoras e lideranças locais. Para as organizações, os mecanismos atuais se concentram no período de campanha e na proteção de candidatos, deixando de abranger todo o ano de atividade parlamentar.


