Lula venceu pela primeira vez em todas as seções eleitorais da China continental. Em Guangdong (Cantão), Xangai e Pequim, o candidato do PT alcançou, respectivamente, 52,2%, 63,7% e 77,6% dos votos válidos. Em Hong Kong, Região Administrativa Especial, Flávio Bolsonaro venceu por margem apertada: 43,0% contra 40,6% de Lula.
Emanuel Leite, secretário-político da Base do PCdoB na China, atribuiu o resultado ao trabalho de organização política realizado no país. “Tivemos uma vitória inédita em Cantão, além das que já havíamos conquistado anteriormente em Pequim e Xangai”, afirmou.
Durante o último ano, a Base do PCdoB e o Núcleo do PT na China promoveram reuniões, debates políticos e encontros culturais voltados também a brasileiros que não pertencem a partidos. Rodrigo do Val Ferreira, co-coordenador do núcleo petista, disse que o grupo atuou no combate à desinformação e passou a realizar encontros presenciais semanais no último mês, depois de manter reuniões mensais.
A mudança no comportamento eleitoral
Ferreira vive em Xangai desde 2005 e vota na China desde 2008. Segundo ele, por mais de uma década a esquerda perdeu nas seções eleitorais do país. A avaliação é que os brasileiros que imigraram para a China, por precisarem ter formação universitária em razão da política migratória chinesa, tendiam ao voto conservador, especialmente nos anos 2000.
Em 2018, Bolsonaro obteve 58,8% dos votos em Xangai no primeiro turno e liderou em Pequim. Na capital, Haddad virou o resultado no segundo turno. Depois da prisão de Lula naquele ano, um grupo criou o primeiro Comitê Lula Livre na Ásia, que posteriormente deu origem ao Núcleo do PT na China.
Em 2022, 179 dos 695 eleitores aptos compareceram no primeiro turno; Lula recebeu 93 votos. No segundo turno, foram 194 eleitores, com 125 votos para Lula e 62 para Jair Bolsonaro.
Disputa sobre o futuro da relação
Os debates organizados pelos grupos políticos tiveram como temas centrais a relação entre Brasil e China e a interferência dos Estados Unidos na política brasileira. Leite afirmou que, para quem vive na China, a disputa geopolítica internacional pode ser percebida em diferentes dimensões da vida dos países.
Em 2024, durante a visita de Estado de Xi Jinping, Brasil e China elevaram a relação bilateral à Comunidade de Futuro Compartilhado Brasil-China por Um Mundo Mais Justo e Um Planeta Mais Sustentável. Para Leite, a formulação reúne desenvolvimento nacional, cooperação internacional, sustentabilidade e defesa do multilateralismo.
Ferreira avaliou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria risco para os vínculos com a China. Ele citou 21 exigências apresentadas pelo governo Trump ao Brasil para suspender tarifas e afirmou que muitas seriam opostas aos interesses chineses. Também mencionou o risco de abandono dos Brics e de adesão ao chamado “Escudo das Américas”, proposta de aliança militar hemisférica feita por Washington este ano.


