A classe dominante brasileira chegou às urnas neste domingo (4) sem consenso sobre o projeto político que deveria prevalecer no país, na avaliação do historiador Valério Arcary. Em entrevista sobre as Eleições 2026, ele identificou uma divisão entre a maioria da burguesia, alinhada ao bolsonarismo, e uma fração liberal que compartilha aspectos do programa econômico da extrema direita, mas demonstra reservas em relação ao projeto de poder dos Bolsonaro.
Arcary estima que o setor majoritário reúna cerca de 2,5 milhões de pessoas. A fração liberal, por sua vez, apoiou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022, movimento simbolizado pelo apoio de Simone Tebet ao petista. O historiador ressalva, porém, que esse grupo não se identifica com o programa econômico do governo Lula. Sua convergência estaria no ultraliberalismo defendido pelos Bolsonaro, enquanto a divergência se concentra no risco autoritário associado ao projeto de poder da extrema direita.
“Uma fração que arrasta a massa da burguesia, arrasta a grande maioria dos patrões, que apoia o bolsonarismo”, afirmou Arcary.
Segundo o historiador, setores liberais tentaram formar uma terceira via nos últimos anos, mas não conseguiram consolidá-la. Nas semanas finais da campanha, essa divisão teria ficado mais evidente, especialmente após o apoio à ofensiva contra o ministro Alexandre de Moraes, conduzida pelo ministro André Mendonça.
Na leitura de Arcary, a iniciativa judicial foi incorporada a uma operação política que buscava aproximar a imagem de Lula da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O movimento se expressou na palavra de ordem “fora Xandão, fora Lula” e teria contribuído para a queda de Lula nas pesquisas e para a recuperação eleitoral de Flávio Bolsonaro.
O historiador afirmou que a resposta de Lula, ao defender a investigação de eventuais irregularidades no Supremo sem blindagem para os ministros, reduziu o impacto dessa associação. Para Arcary, sem essa reação, a campanha poderia ter produzido consequências eleitorais mais profundas.
O reposicionamento dos setores liberais teria ocorrido nas duas últimas semanas, sobretudo na última semana, quando veículos da mídia comercial passaram a destacar as relações de Flávio Bolsonaro com as milícias. Arcary avaliou, contudo, que a mudança aconteceu tarde demais para reverter todos os efeitos da estratégia anterior. “Este reposicionamento foi na última da hora e ainda assim não impediu que se deixassem aprisionar numa armadilha”, disse.



