Mais de 150 milhões de eleitores brasileiros irão às urnas em outubro para escolher entre projetos políticos que extrapolam a disputa pelo Palácio do Planalto. De um lado está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, em busca do quarto mandato. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, herdeiro do capital político de Jair Bolsonaro, que cumpre pena em regime fechado por tentativa de golpe após o resultado das urnas de 2022.
A eleição é apresentada como um confronto entre duas formas de inserção do Brasil no mundo. A candidatura de Lula se associa à autonomia nacional, à cooperação Sul-Sul e à atuação em fóruns multilaterais. O campo de Flávio Bolsonaro se aproxima do alinhamento com Washington e da extrema direita internacional. Um terceiro discurso, de perfil antissistema, também ganhou espaço, mas ainda não alcança o peso dos dois grupos que concentram a disputa pelo Executivo federal.
Uma polarização construída ao longo dos anos
A divisão política atual se consolidou depois dos protestos de junho de 2013 e ganhou força nas eleições de 2018 e 2022. Jair Bolsonaro e sua família se tornaram a principal expressão de uma nova extrema direita, marcada por um discurso antissistema e pela contestação das instituições.
Esse processo passou pela destituição de Dilma Rousseff, em 2016, pela prisão de Lula, em 2018, e pela eleição de Bolsonaro no mesmo ano. O período seguinte foi associado ao desmonte de políticas públicas, estruturas do Estado e empresas estatais, além do uso da máquina pública para fortalecer as narrativas e os esquemas do grupo no poder. Os efeitos dessa trajetória continuam presentes na disputa de 2026.
Pressão internacional e soberania
A dimensão internacional da eleição ganhou força depois que o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, anunciou, em julho de 2025, tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros. O texto oficial da medida mencionou uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. O episódio foi interpretado como um uso inédito da política comercial dos Estados Unidos, por associar tarifas ao julgamento de um aliado político em outro país.
O conflito também apareceu na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, em 22 de setembro de 2026. Em seu último discurso no cargo antes da eleição, Lula criticou as tarifas e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Horas depois, Trump defendeu “poderio militar inigualável” para combater cartéis e citou a prisão de Nicolás Maduro em Nova York, onde ele aguarda julgamento por narcotráfico.
Em junho de 2026, os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas, com indicação de formalizar a medida posteriormente. O governo brasileiro rejeitou o pedido. A preocupação é que organizações criminosas movidas por lucro, sem motivação política ou ideológica, passem a ser tratadas como alvos de ações extraterritoriais.
O governo Lula, por sua vez, ampliou a articulação no Brics, reforçou o Mercosul e sediou, em novembro de 2025, a COP 30, em Belém. A estratégia busca projetar o Brasil como uma voz do Sul Global. Entre 2003 e 2016, os governos Lula e Dilma haviam ampliado a presença internacional do país, com medidas como o pagamento antecipado da dívida com o Fundo Monetário Internacional, a mediação de conflitos e a participação em fóruns multilaterais.
Renda, jornada e desgaste político
No plano social, o governo Lula assumiu como bandeira a proposta de reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem corte de salário. A medida avançou no Senado, mas encontrou resistência do campo de Flávio Bolsonaro. Em maio de 2025, o senador argumentou que a mudança poderia elevar custos e provocar desemprego. O Dossiê 6×1, da Universidade de Campinas, estima a criação de 4,5 milhões de empregos com a redução da jornada.
Em novembro de 2025, o governo sancionou a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês, com desconto escalonado até R$ 7.350. Desde janeiro de 2026, a mudança isentou ou reduziu o imposto de mais de 15 milhões de contribuintes. A compensação ocorre por meio de uma tributação mínima sobre rendas anuais acima de R$ 600 mil.
Essas medidas, porém, não eliminaram as dificuldades eleitorais de Lula. Em 2026, o escândalo do Banco Master abriu uma nova frente de desgaste institucional. A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como líder de uma fraude bilionária, levou a uma investigação que alcançou Flávio Bolsonaro e outros políticos e parlamentares de direita. O caso também envolveu ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Alexandre de Moraes, relator dos processos que resultaram na condenação e na prisão de Jair Bolsonaro pela trama golpista.
A oposição passou a explorar o episódio para tentar atingir a credibilidade de Moraes e, por consequência, questionar a condenação do ex-presidente. O caso acrescentou uma dimensão institucional à disputa eleitoral, já marcada pela polarização entre os grupos ligados a Lula e ao bolsonarismo.
Comunicação e limites do campo popular
A permanência do bolsonarismo competitivo é associada a três fragilidades do campo popular: comunicação, funcionamento institucional e disputa simbólica. Embora os governos Lula tenham ampliado a renda, criado programas e reduzido a fome e a pobreza, há dificuldade para apresentar essas políticas a quem mais se beneficia delas e explicar como funcionam os mecanismos de participação e controle.
A extrema direita, por outro lado, consolidou nos últimos dez anos uma máquina de comunicação digital apoiada por influenciadores, igrejas e grupos de mensagens. Essa estrutura mantém uma identidade política, estética e afetiva, mesmo com Jair Bolsonaro preso, e pode transformar indicadores econômicos positivos em uma percepção de piora.
No Congresso, o presidencialismo de coalizão obriga o governo a negociar com uma maioria de centro-direita, o Centrão. Essa relação pode travar ou diluir reformas estruturais, entre elas mudanças tributárias e propostas para as forças de segurança.
Também pesa a percepção de insegurança e de crise moral, alimentada em parte pelo crescimento de igrejas evangélicas neopentecostais. Essa dimensão simbólica contribui para o antipetismo e dificulta a aproximação entre o governo e parcelas da população.
A eleição de 2026, portanto, reúne uma disputa presidencial, um embate sobre o papel do Brasil no cenário internacional e uma crise mais ampla de representação política. O desafio do campo popular não se limita a vencer a votação: envolve reconstruir vínculos permanentes com a sociedade e ampliar a participação política para além do ato de votar a cada dois ou quatro anos.

