Valerio Arcary afirma que a campanha de Lula deve abandonar uma postura defensiva e partir para o confronto na última semana antes do primeiro turno. Em sua avaliação, a eleição continua imprevisível, mas a pesquisa Datafolha preserva a liderança do petista nos dois turnos e indica uma possível vantagem sobre Flávio Bolsonaro.
O autor destaca que Lula aparece à frente na intenção espontânea, com 36% contra 27%, enquanto os indecisos recuaram para 18%. O bloco formado pelos outros quatro candidatos também perdeu força, passando de 14% há um mês para 12%. Para Arcary, essa movimentação pode indicar deslocamentos entre eleitores que ainda não decidiram o voto.
A vantagem de Lula é maior entre os 50% mais pobres, entre os eleitores menos instruídos e no Nordeste. No Sudeste, a disputa aparece tecnicamente empatada, com 35% para Lula e 37% para Bolsonaro. O cenário se inverte entre os eleitores que recebem entre 2 e 5 salários mínimos, grupo que reúne um terço do eleitorado: Bolsonaro tem 40%, contra 34% de Lula. O candidato também lidera entre evangélicos e no Sul.
O segmento considerado mais favorável a Lula pelo autor é o das mulheres. Ele afirma que o petista tem vantagem de cerca de 9 pontos nesse grupo e chega a 47% contra 27% entre as mulheres que são referência financeira em seus lares. A rejeição dos dois candidatos está em 45%, mas, entre as mulheres, é de 50% para Bolsonaro e 43% para Lula. A avaliação do governo é negativa para 40%, positiva para 34% e regular para 24%.
Medidas e mudança de estratégia
Arcary considera que a tentativa de vencer no primeiro turno defendendo a biografia e o legado de Lula não foi suficiente. Segundo ele, a campanha precisa combinar a defesa da soberania e da democracia com propostas capazes de responder a demandas sociais imediatas.
O autor enumera cinco medidas anunciadas recentemente: aumento de 15% do Bolsa Família, proibição das Bets, disponibilização de canetas emagrecedoras no SUS, universalização do ensino integral e um leilão com deságio de 95% para anular dívidas de até R$15 mil. Na análise apresentada, essas iniciativas chegaram tarde, mas podem produzir efeitos eleitorais entre os indecisos.
Também são citados o discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas e a ida da campanha ao TSE para denunciar interferência externa no processo eleitoral. Arcary sustenta que a atuação do governo Trump em favor de Flávio Bolsonaro se manifesta de maneira pública e clandestina. Ele relaciona esse cenário à disputa sobre a influência dos Estados Unidos na América Latina e ao papel das grandes empresas de tecnologia na circulação e na seleção de informações.
Como exemplo, o artigo menciona o caso da Cambridge Analytica, que teria envolvido dados pessoais de mais de 87 milhões de usuários do Facebook e influenciado o plebiscito do Brexit em 2016. Para o autor, uma eventual vitória de Lula exigiria defender a legitimidade do sufrágio diante desse ambiente de pressão e interferência.
Pressão econômica e base social
Arcary também identifica uma mudança de posição de setores liberais diante da possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro. Ele afirma que editoriais e manifestações de grandes grupos de comunicação passaram a alertar para os riscos associados ao candidato e à sua aproximação com Trump. Ao mesmo tempo, o autor vê crescer a pressão para que Lula assuma compromissos com um ajuste fiscal severo.
Nesse ponto, o jantar anunciado com capitalistas é tratado como uma etapa delicada da campanha. O texto menciona ainda a defesa pública de um compromisso fiscal por José Guimarães e considera que a disputa envolve uma escolha entre essa pressão econômica e a ampliação de reformas sociais.
Entre as propostas que Arcary defende estão o Passe Livre e a regulamentação do Imposto sobre as Grandes Fortunas. Ele afirma que a gratuidade do transporte poderia começar em algumas grandes metrópoles e ser financiada pelo aumento da tributação sobre os mais ricos.
A conclusão do autor é que a eleição será decidida no Sudeste, especialmente nas grandes cidades, e que as mulheres periféricas formam a principal base social para a vitória de Lula. A campanha, em sua avaliação, precisa apresentar medidas que alterem as condições de vida da população e impedir o retorno dos neofascistas ao poder.



