A campanha de Lula precisa manter a iniciativa tática e adaptar seus métodos à dinâmica de uma eleição ainda indefinida, afirma Valerio Arcary. Para o autor, as duas semanas finais serão decisivas, e a disputa exige novos compromissos capazes de mobilizar a militância e responder a expectativas sociais acumuladas.
Entre as medidas mencionadas estão o aumento do Bolsa-Família, a oferta gratuita de canetas emagrecedoras pelo SUS, o enfrentamento do endividamento provocado pelas bets como questão de saúde pública e o fim da jornada 6×1. Arcary considera que essas decisões chegaram atrasadas, mas ainda podem influenciar a agenda eleitoral. Também defende a incorporação de propostas como a regulamentação do imposto sobre grandes fortunas e o passe livre.
O artigo avalia que a apresentação da biografia de Lula, a defesa das ações do governo e a comparação com a gestão Bolsonaro foram necessárias no início da campanha. A soberania nacional e a democracia também aparecem como temas centrais, diante da interferência de Trump e do risco de retorno do bolsonarismo ao poder.
Disputa no STF e pressão sobre a eleição
Na avaliação de Arcary, o impasse no STF evitou que as duas últimas semanas fossem dominadas pelo tema da corrupção. O autor considera que a investigação contra Alexandre de Moraes antes do primeiro turno poderia fortalecer a campanha “Fora Xandão, Fora Lula”. Para ele, o pedido de vistas de Dino representou uma solução menos prejudicial do que uma derrota.
O texto também critica a decisão de não unificar a investigação sobre pessoas citadas em relações suspeitas com Vorcaro. Arcary afirma que setores liberais apoiaram uma tentativa de associar Lula a Alexandre de Moraes e de transformar a corrupção no eixo do debate eleitoral. Segundo o autor, essa agenda favorece a extrema direita.
O artigo ainda aponta pressão para que Lula assuma um ajuste fiscal com superávit entre 2% e 3%. Também menciona a possibilidade de desvinculação do salário mínimo como piso dos benefícios da Previdência Social e afirma que a interferência dos EUA, iniciada em julho de 2025 com o tarifaço, pode pesar na eleição.
Pesquisa mostra disputa aberta
A análise usa a mais recente pesquisa Datafolha para sustentar que o resultado permanece imprevisível. No segundo turno, Lula aparece com 46% contra 44% de Flávio Bolsonaro, enquanto ambos registram rejeição de 47%. O levantamento também indica que a realização de um segundo turno é muito provável e que a vantagem de Lula no primeiro turno diminuiu.
Lula mantém vantagem entre os mais pobres, no Nordeste, entre os menos instruídos e entre católicos. Flávio Bolsonaro aparece à frente entre eleitores que ganham entre dois e cinco salários-mínimos, na classe média acima de R$ 7.500 e no Sul. As diferenças, porém, estão dentro dos limites da margem de erro, e a margem nos dois segmentos de renda é de seis pontos.
Na pesquisa espontânea, Lula tem 35% e Flávio Bolsonaro, 26%. O levantamento registra ainda que 21% dos eleitores não fizeram sua escolha. Para Arcary, esse quadro mantém um espaço amplo de disputa, especialmente entre trabalhadores, negros e mulheres. O autor também avalia que parte dos 15% atribuídos a Cury, Caiado, Renan e Zema pode migrar para Bolsonaro já no primeiro turno.
Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo, militante da Resistência/PSol e autor de “O Martelo da história”, entre outros livros.


