HAVANA — O embaixador do Brasil em Cuba, Christian Vargas, defendeu a cooperação entre os dois países durante a inauguração da Casa Brasil, em Havana, realizada em 17/9. O diplomata afirmou que as relações bilaterais devem se basear no respeito mútuo, no cumprimento do direito internacional e na defesa da soberania.
“Brasil e Cuba defendem a não ingerência em assuntos internos de outros países e têm um histórico de diálogo e cooperação”, disse Vargas. Ele apresentou o espaço como uma homenagem à amizade, à solidariedade entre os povos e à esperança.
Relações históricas e herança cultural
A solenidade também marcou os 120 anos das relações entre Brasil e Cuba, interrompidas apenas durante a ditadura militar (1964-1985), e os 40 anos do restabelecimento dos vínculos. O evento ainda lembrou os 100 anos do nascimento de Fidel Castro, líder da revolução cubana em 1959.
Segundo Vargas, a aproximação entre os povos também tem relação com a herança africana compartilhada, presente nas práticas religiosas, na culinária, na produção artística e musical, na diversidade e nos afetos dos dois países. O embaixador afirmou que a Casa Brasil representa um projeto sonhado por mais de 30 anos.
O imóvel fica na Calle Amargura, 56, entre as ruas Mercaderes e San Ignacio, em Havana. A construção tem pintura amarela, janelas azuis e jardins verdes. Vargas destacou a participação de Perla Rosales, diretora adjunta do Escritório do Historiador de Havana, instituição governamental cubana responsável pelo planejamento, pela gestão e pela execução de ações de restauração e preservação do Centro Histórico de Havana, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO.
O diplomata também associou a criação do espaço à atuação de Eusébio Leal, historiador, escritor e intelectual que defendeu a instalação de uma instituição cultural brasileira na capital cubana. Leal ficou conhecido por liderar a restauração e a preservação do centro histórico.
Homenagens e participação brasileira
A cerimônia reuniu integrantes da comunidade brasileira, diplomatas de diversos países, dirigentes do governo cubano, intelectuais, artistas e acadêmicos de universidades locais, segundo Maria Auxiliadora César, professora emérita da Universidade Nacional de Brasília e moradora de Havana.
Foram homenageados os embaixadores brasileiros Ítalo Zappa e Jorge Bolaños, que participaram das negociações para a aproximação entre Brasil e Cuba. Vargas também lembrou Raúl Roa Kourí, representante diplomático cubano em Brasília. Os três foram citados por sua atuação no fortalecimento da cooperação bilateral.
Ítalo Zappa, que completou 100 anos no mesmo ano da cerimônia, dedicou sua atuação diplomática ao reconhecimento da independência de países africanos nos anos 70, ao restabelecimento das relações com a China e aos vínculos com países do chamado Sul Global.
A ideia de um centro cultural brasileiro em Havana surgiu na década de 1990 entre integrantes dos movimentos de solidariedade brasileira em Cuba. Entre os nomes associados ao projeto está Hélio Dutra, que viveu na ilha por quase 60 anos, desde 1945 até sua morte em 2004, aos 96 anos.
Dutra é o único brasileiro sepultado no Panteão dos Emigrados Revolucionários do Cemitério de Colón, em Havana. Ele foi descrito como uma referência para brasileiros que passaram pela ilha. Antes da Casa Brasil, existiu o Rincón Brasil, espaço que funcionou por 15 anos, entre 2010/2025, com participação de Maria Auxiliadora César, uma das inspiradoras do novo centro e diretora do local.
Críticas às sanções contra Cuba
No encerramento de sua fala, Vargas mencionou as dificuldades enfrentadas por Cuba. O embaixador criticou o aumento de sanções unilaterais, as pressões e as ameaças contra a ilha, além de reiterar a posição brasileira contrária a medidas coercitivas unilaterais.
Ele também afirmou que o Brasil expressa, na comunidade internacional e nas Nações Unidas, oposição ao bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba. Para Vargas, as consequências humanitárias dessas medidas estão convertendo a ilha em uma “verdadeira Gaza silenciosa”.


