NOVA YORK — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode voltar a alterar o roteiro previsto para a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) depois do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é de Ricardo Leães, professor e pesquisador de Relações Internacionais, que recorda um episódio semelhante ocorrido no ano passado, quando Trump falou na sequência do presidente brasileiro, quebrou o protocolo e disse ter havido uma “química” entre os dois.
Lula participa da agenda internacional a partir desta terça-feira (22), em Nova York, nos Estados Unidos. Candidato à reeleição e a menos de duas semanas das eleições presidenciais, ele fará um discurso durante a conferência. Trump falará em seguida e, segundo a avaliação de Leães, não seria surpreendente que adotasse novamente uma combinação de ameaças e sinais amistosos.
O alcance da fala presidencial
Para o especialista, o discurso pode ter importância política, mas não deve gerar ganhos concretos para o Brasil. Ele afirma que mudanças substanciais dependem menos de declarações e mais das capacidades econômicas, financeiras, industriais, tecnológicas e militares dos países.
“Não vejo muita possibilidade de que isso possa se converter em nenhum tipo de ganho para o Brasil”, disse Leães. Na avaliação dele, uma boa ideia ou um bom discurso só alcança efeitos mais profundos quando está acompanhado de transformações nas fontes de poder concreto, algo que, segundo ele, não ocorre no Brasil neste momento.
O professor também relaciona a expectativa atual ao ambiente do ano passado, quando o Brasil enfrentava a ameaça do tarifaço de Trump. A medida não ocorreu, e o presidente americano adotou um tom diferente ao mencionar o encontro com Lula. Leães cita ainda comportamentos semelhantes de Trump em relação à Coreia do Norte e à Rússia, alternando declarações de confronto e aproximação.
Soberania e capacidade de resistência
Caso Lula defenda a soberania brasileira, Leães considera que a posição, isoladamente, não resolverá a situação prática. Para ele, soberania significa ter condições de dizer não às grandes potências e recursos para resistir às reações decorrentes dessa decisão. Assim, embora considere a postura presidencial louvável, o especialista não acredita que ela, por si só, torne o Brasil um país soberano e autônomo.


