O empresário mato-grossense Celso Ferreira Penço Filho foi o maior doador pessoa física da campanha de reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ele transferiu R$ 600 mil à campanha em 11 de setembro. Até esta sexta-feira (2), nenhum outro doador pessoa física havia contribuído com valor superior.
Penço Filho é herdeiro de uma família que mantém propriedades rurais e empresas no noroeste de Mato Grosso, em uma região onde há décadas são realizados trabalhos de localização e proteção dos Piripkura, indígenas isolados. Levantamentos técnicos identificaram imóveis da família com áreas sobrepostas à Terra Indígena (TI) Piripkura.
Na lista de doadores, aparecem depois os irmãos Hélio e Salo Seibel, controladores do Grupo Ligna, com R$ 575 mil cada. Penço Filho não tem atuação política pública relevante identificada e não apresentou explicação pública para o financiamento da campanha em São Paulo.
Propriedades e registros ambientais
Um dos principais imóveis ligados à família foi a Fazenda Mudança, que pertencia a Celso Ferreira Penço, pai do doador, morto em 2016. A propriedade tinha cerca de 400 mil hectares e deu origem ou esteve relacionada às fazendas Central e Madeirinha.
Relatório da Operação Amazônia Nativa (Opan) registra que os trabalhos de localização dos Piripkura começaram em 1984, com uma expedição à Fazenda Mudança e a outras propriedades da área. O mesmo levantamento identificou as fazendas Mudança, Mutum, Central, Madeirinha e Céu Aberto entre imóveis administrados por Júlia Tretel Penço, irmã de Celso Filho, com áreas sobrepostas à terra indígena.
Dois Cadastros Ambientais Rurais (CARs) da Agropecuária Paralelo 10 permanecem ativos sobre a TI Piripkura. Os registros correspondem às fazendas Mutum e Bem-Te-Vi e apresentam 4.967,71 hectares de sobreposição em cada cadastro. Os dois registros, porém, incidem sobre o mesmo polígono. A empresa é controlada atualmente por integrantes da família Penço, embora Celso Filho não apareça no quadro societário atual.
Celso Filho também é sócio de Júlia na Trindade Participações, ligada à Trindade Florestal. A empresa chegou a manter um CAR com cerca de 4.967 hectares sobrepostos à TI Piripkura; o cadastro foi cancelado. Outras empresas associadas aos irmãos, como a Agropecuária Mudança e a Agropecuária Ferreira Penço, mantêm atividades rurais e florestais na região.
Investigação sobre exploração de madeira
O pai de Celso Filho foi um dos principais alvos da Operação Curupira II, deflagrada pela Polícia Federal em 2005. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigavam um esquema de exploração e comercialização ilegal de madeira no noroeste de Mato Grosso, com suspeitas de fraude em planos de manejo, grilagem de terras e uso irregular de autorizações para transporte de produtos florestais.
Celso Ferreira Penço foi apontado como um dos beneficiários do esquema. O processo criminal não teve decisão final sobre as acusações, e a punibilidade foi extinta após sua morte, em 2016. Em 2008, a Agropecuária Paralelo 10 recebeu três autos de infração ambiental que somavam cerca de R$ 3,1 milhões.
Negócios em agropecuária e energia
Atualmente, Celso Filho é sócio-administrador da Agropecuária Chão Duro, com fazendas em Diamantino e Paranatinga, e diretor da KLN1 Geradora de Energia. A empresa desenvolve a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Pucon 2, projetada para o rio Culuene, um dos formadores do rio Xingu.
Em junho deste ano, uma carta-consulta da KLN1 foi enquadrada pelo governo estadual para financiamento de R$ 60,1 milhões pelo Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO).
O empresário foi questionado sobre a contribuição à campanha, suas relações com Tarcísio de Freitas e eventual posse ou reivindicação de direitos sobre áreas incidentes na TI Piripkura. Também foi perguntado sobre patrimônio herdado do pai na região. Não houve resposta até a publicação, e permanece aberto o espaço para manifestação.



