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Caso colombiano expõe redes digitais e influência externa em eleição apertada

Análise de Susan Pérez descreve uso de inteligência artificial, contas automatizadas e financiamento oculto na disputa presidencial da Colômbia.

Caso colombiano expõe redes digitais e influência externa em eleição apertada

A vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia, em maio de 2026, por menos de um ponto percentual, foi acompanhada por uma estrutura de influência digital, apoio externo e financiamento não declarado. A jornalista e analista digital colombiana Susan Pérez afirma que a campanha combinou inteligência artificial, redes automatizadas, anúncios segmentados e circulação de conteúdos falsos em grupos privados.

A intervenção dos Estados Unidos, segundo Pérez, tornou-se explícita na fase final da disputa, quando Donald Trump publicou três mensagens pedindo votos para De la Espriella e prometendo apoio total do governo estadunidense. A pesquisadora também cita a mobilização de colombianos residentes nos Estados Unidos, a prisão do ativista Beto Coral e a presença de uma delegação ligada ao entorno de Trump no encerramento da campanha em Barranquilla.

Coral havia pedido que colombianos nos Estados Unidos não votassem em Espriella. A prisão ocorreu depois de um memorando do secretário de Estado Marco Rubio, que o acusava de interferir na política externa estadunidense. Especialistas do The New York Times classificaram o documento como uma intervenção de linha dura.

Outro elemento apontado por Pérez foi a decisão da Meta de suspender, em dezembro de 2025, o programa de checagem de fatos na Colômbia. O sistema foi substituído por notas da comunidade, que, segundo a analista, não reduzem o alcance de conteúdos falsos.

Desinformação e ausência de transparência

A Colômbia não possui legislação que obrigue plataformas a informar quem financia conteúdos impulsionados ou campanhas orgânicas. Pérez relaciona esse vácuo regulatório à dificuldade de responsabilizar grupos que atuam sem identificação pública. Ela também menciona a Lei 1909 de 2018 e compara o cenário com o Brasil, onde o Projeto de Lei 2630 foi barrado por 683 ações de lobby em um ano, embora existam regras do TSE sobre inteligência artificial e deepfakes.

A análise identificou uma página colombiana que publicou mais de 1.100 vídeos e alcançou 380 milhões de visualizações. Os materiais apresentavam repórteres criados por inteligência artificial, com sotaque colombiano, em entrevistas de rua fictícias. Dos 50 vídeos verificados por Pérez, todos eram favoráveis a De la Espriella.

A pesquisadora também estima que, entre 6 milhões de contas colombianas no X, 2 milhões fossem bots operados por IP móvel e proxy móvel. O Cloudflare Radar indicou 57,5% de tráfego automatizado, enquanto o MinTIC desativou 5,1 milhões de IPs falsos.

A circulação em aplicativos de mensagem teve papel central. Em grupos familiares e de trabalho, conteúdos falsos eram transmitidos por pessoas conhecidas, o que ampliava sua credibilidade. “O grande vetor de disseminação ocorreu em grupos fechados de mensagens”, afirmou Pérez.

Entre agosto de 2025 e maio de 2026, foram registradas 43 mentiras contra o candidato progressista, incluindo montagens feitas com inteligência artificial, pesquisas falsas e boatos sobre perda de seguidores. A investigação também identificou cerca de 110 contas de ataque, veículos de fachada, pesquisas irregulares da Atlas Intel e tentativas de influenciar a percepção pública por meio da plataforma de apostas Polymarket.

Projeto Júpiter

A operação descrita como Projeto Júpiter teria sido montada para interferir no processo eleitoral de 2026. A articulação é atribuída a Jaime Bermúdez Merizalde, ex-assessor de comunicações do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez e ex-chanceler da Colômbia.

A denúncia foi apresentada pelo consórcio Señal Investigativa, formado pela Señal Colombia e pela revista RAYA. O esquema teria atualizado métodos associados ao caso Cambridge Analytica, concentrando sua estratégia em medo, indignação e incerteza para enfraquecer o governo de Gustavo Petro e atacar candidaturas progressistas, como a de Iván Cepeda.

Em áudios gravados durante reuniões com empresários, Bermúdez teria admitido a arrecadação de cerca de 7 bilhões de pesos colombianos e prometido manter em sigilo os nomes das empresas financiadoras. Desde maio de 2025, a estrutura teria produzido mais de 1.700 peças digitais, com cerca de 40 novos materiais por semana, alcançando mais de 17 milhões de pessoas nos 32 departamentos da Colômbia.

A operação usava microtargeting, com cruzamento de dados em redes sociais para direcionar anúncios a perfis específicos. Essa segmentação fazia com que parte da propaganda não fosse vista pela maioria da população nem pelos órgãos de fiscalização.

Uma página do Facebook chamada “Está en Nuestras Manos” mantinha cerca de 260 anúncios políticos ativos, impulsionados com recursos não declarados. Os conteúdos usavam personagens criados por inteligência artificial — uma padeira, um comerciante e um agricultor — para simular depoimentos espontâneos de descontentamento com o governo.

O investimento se concentrou em quatro territórios: Bogotá, Valle del Cauca, Antioquia e Atlántico. Outra página, Todo puede ser mejor, difundia conteúdos agressivos, deboches e informações manipuladas com apoio de influenciadores da região litorânea.

A Meta desativou “Está en Nuestras Manos” em 15 de maio de 2026, após dezenas de violações das regras de transparência eleitoral. O encerramento ocorreu 17 dias antes do primeiro turno, quando os conteúdos já haviam alcançado milhões de votantes.

Reações e alerta para o Brasil

Pérez afirma que denúncias foram apresentadas ao longo do processo. Em fevereiro de 2026, Petro e a Casa Branca teriam assinado um acordo de não intervenção, posteriormente violado. Em maio de 2026, foi exposto o vazamento de 1,4 milhão de dados, e a Misión de Observación Electoral informou que 74% das narrativas falsas buscavam distorcer o processo eleitoral.

Em junho de 2026, a Chancelaria colombiana repudiou a ingerência externa. O Conselho Nacional Eleitoral tomou medidas relacionadas a irregularidades na Polymarket e na Atlas Intel, enquanto a Superintendência de Indústria e Comércio publicou diretrizes sobre dados sensíveis. O MinTIC também monitorou redes.

Iván Cepeda Castro pediu à Procuradoria-Geral da Nação uma investigação sobre o Projeto Júpiter depois das revelações divulgadas em 19 de abril de 2026. Petro rejeitou o apoio explícito de Washington a uma candidatura e afirmou que a postura violava acordos prévios de não intervenção e a soberania colombiana.

Após a eleição, o presidente também acusou a intervenção estrangeira de envolver recursos e apoio externo para manipular digitalmente o sistema de contagem de votos. Petro pediu judicialmente a anulação do pleito e afirmou que alterações em algoritmos dos formulários de votação comprometiam a legitimidade do resultado que deu a vitória a De la Espriella.

A contestação alcançou o Congresso dos Estados Unidos. Um grupo de 20 parlamentares da Câmara dos Representantes, liderado por Jim McGovern, divulgou uma declaração em 12 de junho de 2026 contra as ações do governo Trump. Deputados do Parlamento Europeu também enviaram uma carta condenando os pronunciamentos de Trump.

Para as eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, Pérez recomenda distinguir pesquisas eleitorais de casas de aposta, observar discursos antecipados de fraude, desconfiar de conteúdos produzidos por inteligência artificial e de mensagens disseminadas em grupos privados. A analista também defende atenção a mídias simuladas, linchamentos virtuais apresentados como indignação espontânea e à diferença entre a dinâmica das redes e a participação direta dos eleitores.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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