A permanência de um candidato cercado por denúncias, suspeitas e escândalos financeiros na disputa pela Presidência provoca uma questão que ultrapassa o campo jurídico: como a ética deve orientar a escolha política? Investigações não equivalem a condenações, e a presunção de inocência e o devido processo legal precisam ser preservados. Ainda assim, o voto envolve responsabilidade sobre os valores e projetos que se deseja levar ao poder.
A polarização dificulta esse discernimento ao transformar adversários em inimigos. O desejo de derrotar o outro pode se sobrepor à avaliação crítica, enquanto propaganda, desinformação, medo, ressentimento e repetição algorítmica aproximam fatos e fabricação, reflexão e impulso. Nesse ambiente, uma conduta condenada quando atribuída ao adversário pode ser relativizada quando aparece no próprio campo político.
O que está em disputa
A escolha eleitoral não se limita a nomes. Ela também envolve visões de sociedade: a defesa das instituições democráticas, dos direitos e dos limites ao poder; a preservação da pluralidade; e a definição de um modelo de desenvolvimento que considere a economia, os mais vulneráveis e a natureza. Também está em debate o papel do Estado na proteção de pobres e trabalhadores diante de interesses econômicos poderosos.
As referências a Hannah Arendt e Norberto Bobbio ajudam a formular o alerta. A banalização do mal aparece quando a indignação moral é relativizada por conveniência. Da mesma forma, a democracia se enfraquece quando seus princípios são aplicados com rigor aos adversários e flexibilizados para os aliados.
O critério apresentado a partir de Dom Pedro Casaldáliga é colocar os pobres no centro da decisão. Isso significa rejeitar tanto a política baseada no ódio quanto a idolatria de partidos e candidatos, priorizando os perseguidos, os marginalizados e a ecologia integral.
Fé, poder e coerência
A crítica também alcança o uso da linguagem religiosa na política. A defesa de valores cristãos perde coerência quando se distancia da justiça, da paz, do cuidado com os pobres e da proteção dos direitos negados. A aparência de moralidade não elimina contradições internas, assim como a corrupção não deixa de ser corrupção por mudar de lado.
A reflexão termina sem abandonar a esperança. A partir de “Caçador de Mim”, de Milton Nascimento, surge o chamado para buscar um projeto coletivo de felicidade, justiça, paz e ecologia integral. A imagem final é a de atravessar a escuridão com responsabilidade, coragem e ternura, mantendo a esperança como orientação para a vida pública.



