A coletânea “O Mundo que conhecíamos ficou para trás” reúne relatos de mulheres da Faixa de Gaza escritos durante a ofensiva israelense. Publicado no Brasil pela Mórula Editorial, o livro apresenta testemunhos organizados pelo Instituto de Estudos da Mulher da Universidade Birzeit, na Cisjordânia ocupada, e posteriormente compartilhados na página da instituição no Facebook.
A edição brasileira tem 152 páginas, tradução direta do árabe, capa ilustrada por Maha Abuelkas e texto de abertura da jornalista e ativista Gizele Martins, do Complexo da Maré. A tradução, a organização e as demais etapas do trabalho foram realizadas de forma voluntária.
Escrita em meio à destruição
Os textos foram produzidos por mães, filhas, estudantes e profissionais que registraram experiências de luto, deslocamento e tentativa de sobrevivência. Os relatos abordam desde homenagens a pessoas mortas e impedidas de receber um sepultamento digno até a busca por água limpa, as dificuldades para obter ajuda humanitária, a fome e partos realizados em acampamentos de tendas.
Rania Jawad, organizadora da obra, é professora assistente e chefe do Departamento de Língua e Literatura Inglesa da Universidade Birzeit. Quando a ofensiva começou, ela dirigia o Instituto de Estudos da Mulher. Segundo Jawad, a iniciativa surgiu para reunir e ampliar as palavras de mulheres de diferentes idades, origens e posições sociais, inicialmente por meio de contatos já existentes e depois a partir de textos publicados pelas próprias autoras.
A organizadora afirma que a destruição das telecomunicações e os apagões impostos por Israel dificultaram a comunicação, mas não impediram que as mulheres respondessem. Para ela, os testemunhos não produzem, por si só, uma compreensão completa da experiência vivida em Gaza. A leitura, disse, deve levar o público a refletir sobre o que fará com aquilo que leu e sobre sua relação com as lutas contra forças racistas, fascistas, capitalistas e sexistas.
Uma obra situada no genocídio
A reunião dos textos não foi concebida originalmente como um projeto editorial. O objetivo inicial era estabelecer uma conexão com a população de Gaza, preservar as palavras das autoras e oferecer algum apoio. A continuidade do contato permitiu acompanhar mudanças nas vidas das mulheres e atualizar suas minibiografias para a edição.
Jawad afirma que esse processo tornou evidente que a violência não havia terminado. Os efeitos permanecem na vida palestina, nos corpos, nas memórias e nos futuros das autoras. Algumas delas também prepararam vídeos curtos para ler trechos de seus textos e falar sobre suas vidas no período de lançamento do livro.
A coletânea não pretende abranger toda a experiência palestina nem todas as áreas atingidas pela violência. Para a organizadora, os textos registram um momento específico do genocídio na Faixa de Gaza. Ela também relaciona essa tragédia a uma ordem mundial que, em sua avaliação, aceita ou promove a destruição de povos considerados indesejáveis, incluindo populações indígenas, negras e pardas.
Até o início de setembro, 73.669 palestinos haviam sido mortos no território. O cessar-fogo firmado em outubro do ano passado não interrompeu os ataques, e a Comissão Internacional Independente do Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado concluiu que Israel, sob o comando do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cometeu genocídio na Faixa de Gaza.
Publicação em português
Para Jawad, a publicação no Brasil amplia uma conexão construída a partir dos relatos. A tradução para o português é apresentada por ela como resultado concreto de um trabalho político voltado a aproximar povos e comunidades submetidos a guerras coloniais e imperiais.
O livro também registra a distância entre quem organizou a obra, na Cisjordânia, e as mulheres que escreveram na Faixa de Gaza. O bloqueio impedia a presença física ao lado da população atingida, mas a coleta e a circulação dos testemunhos criaram uma forma de contato ao longo do tempo.


