BRASÍLIA — A relação de Sérgio Moro com instituições dos Estados Unidos se estendeu da cooperação entre a Lava Jato e o Departamento de Justiça americano a acordos firmados quando ele era ministro da Justiça e Segurança Pública. Também incluiu contatos com o FBI, palestras, uma consultoria para a empresa Alvarez & Marsal e uma visita não prevista à Agência Central de Inteligência (CIA).
O histórico voltou ao centro do debate nesta sexta-feira (2), a dois dias das eleições, quando os Estados Unidos fecharam os serviços consulares presenciais na Embaixada em Brasília e nos consulados no Brasil. A justificativa apresentada foi “Questões de segurança”, sem explicações adicionais. No Paraná, Moro (PL) lidera a disputa pelo governo estadual.
Cooperação sem os trâmites oficiais
Em 2017, organizações e entidades questionavam os interesses envolvidos na atuação do então juiz da Lava Jato. Um mês depois, o subprocurador-geral do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Kenneth Blanco, divulgou uma declaração sobre a cooperação e a troca de informações com a força-tarefa brasileira.
Blanco afirmou que a relação entre os dois países permitia comunicação direta entre procuradores e agentes sobre provas, sem dependência exclusiva de tratados de auxílio judiciário mútuo. A declaração permanece disponível publicamente.
As conversas reveladas posteriormente mostraram que procuradores da Lava Jato mantinham cooperação secreta com agentes do FBI e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos para articular investigações sem autorização do Estado brasileiro. Os integrantes da força-tarefa demonstravam preocupação com a possibilidade de a imprensa e o governo tomarem conhecimento da proximidade.
Em 2015, provas da Operação Triplo X, que investigava a Mossack Fonseca e o tríplex do Guarujá, foram compartilhadas com o FBI sem passagem pelos trâmites oficiais ou por uma autoridade central. No mesmo ano, Deltan Dallagnol ocultou do Ministério da Justiça e de órgãos oficiais a chegada de uma comitiva com pelo menos 17 agentes estadunidenses a Curitiba.
Moro sugeria linhas de investigação, indicava testemunhas e cobrava rapidez nas operações. Em julho de 2017, aceitou a denúncia e condenou Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex. Em 2021, o plenário do Supremo Tribunal Federal confirmou, por 7 votos a 4, a suspeição de Moro e reconheceu sua parcialidade no processo.
Petróleo, empresas e reconhecimento nos EUA
A atuação da Lava Jato também resultou em multas bilionárias aplicadas pelos Estados Unidos a empresas brasileiras, entre elas a estatal Petrobras. A avaliação de que a operação teria servido para enfraquecer setores brasileiros de óleo, gás e engenharia é defendida por cientistas políticos, economistas e historiadores, como Marilena Chauí e Vijay Prashad, além de pesquisadores da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP).
Guilherme Estrella, geólogo e ex-diretor da Petrobras, afirmou em 2022 que a Lava Jato destruiu empreiteiras nacionais de engenharia e fragilizou a Petrobras. Em 2018, os Estados Unidos se tornaram o maior produtor mundial de petróleo, à frente de Rússia e Arábia Saudita. O preço do barril havia caído cerca de 60% entre junho de 2014 e janeiro de 2015, durante um período de crise internacional do petróleo.
Moro foi incluído pelas revistas Fortune e Time, em 2017, em listas de pessoas influentes. Em maio de 2018, recebeu em Nova Iorque o prêmio de “Personalidade do ano de 2018”, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. No discurso, disse que não havia sinais de ruptura democrática após a Lava Jato e a deposição de Dilma Rousseff.
A Câmara concedeu o mesmo prêmio a Jair Bolsonaro no ano seguinte. Em 2026, a entidade defendeu que o Brasil não adotasse medidas da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos em resposta ao tarifaço imposto pelo governo Trump.
Consultoria e acordos durante o governo Bolsonaro
Depois de deixar o Ministério da Justiça e Segurança Pública, Moro recebeu cerca de R$ 3,7 milhões da Alvarez & Marsal por serviços de consultoria entre novembro de 2020 e outubro de 2021. O valor correspondia a US$ 45 mil mensais, além de bônus. A empresa, sediada nos Estados Unidos, atuou em processos de recuperação judicial da Novonor, antiga Organização Odebrecht, e das empreiteiras OAS e Galvão Engenharia, atingidas pela Lava Jato.
O Tribunal de Contas da União investigou o caso em 2021 por suspeita de possível conflito de interesses. O plenário arquivou as investigações em agosto de 2022, ao considerar que o tema não cabia à alçada do órgão e deveria ser analisado pela Receita Federal.
Em março de 2019, quando era ministro, Moro anunciou em Washington dois acordos de cooperação com os Estados Unidos. Um deles previa troca de informações entre o FBI e a Polícia Federal para combater corrupção e crime organizado.
Na mesma viagem, Moro integrou a comitiva que visitou o gabinete de Donald Trump. Acompanhado do então deputado federal Eduardo Bolsonaro, o presidente e o ministro fizeram uma visita surpresa à CIA, que não constava da agenda oficial.
Desde março de 2025, Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos. Em junho de 2026, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou a permanência do tarifaço a pedido do ex-parlamentar. O texto também registra que Eduardo recebeu visto permanente do governo Trump e teve o mandato cassado no ano passado.
A Agência Brasileira de Inteligência classificou como “crítico” o risco de influência e interferência externa dos Estados Unidos nas eleições de 2026. Luiz Inácio Lula da Silva e Renan Santos também manifestaram temor de aumento da interferência externa na democracia brasileira. A campanha de Moro não se manifestou quando questionada sobre o tema.



