SÃO PAULO — O desabamento de um prédio de 12 andares em construção no bairro da Penha de França, na zona leste de São Paulo, matou seis pessoas de uma casa vizinha e, na avaliação do geógrafo Ricardo Barbosa da Silva, não deve ser tratado como um acidente isolado. O autor afirma que a obra já acumulava processos judiciais e interdições por irregularidades, enquanto a fiscalização não teria impedido a continuidade da situação.
Em artigo de opinião, Silva relaciona a tragédia à expansão acelerada do mercado imobiliário e aos efeitos da verticalização sobre a paisagem urbana. Para ele, a pressão por novos empreendimentos também ameaça a memória histórica e cultural negra da Penha, um dos bairros mais antigos da capital.
Metrô e pressão imobiliária
A ampliação da Linha 2–Verde do Metrô, projetada para conectar a Penha à Avenida Paulista, aparece no texto como um dos fatores que impulsionam a valorização imobiliária do bairro. O autor reconhece a importância da melhoria do transporte público, mas afirma que a obra vem sendo usada como catalisador da especulação, porque o Plano Diretor permite maior verticalização no entorno das estações.
Na análise apresentada, esse processo pode reproduzir na Penha o chamado “efeito Tatuapé”, associado à construção de grandes prédios e à transformação da paisagem. O artigo também relaciona a verticalização ao aumento dos congestionamentos, dos aluguéis e do custo de vida, com risco de afastamento dos moradores que já vivem no bairro.
Patrimônio negro e resistência comunitária
A identidade da Penha é descrita como resultado da convivência entre diferentes grupos. O acolhimento histórico a migrantes nordestinos se soma à presença de povos latino-americanos, como bolivianos e peruanos, e aos vínculos construídos pela população negra.
Um marco dessa história é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída pela comunidade negra em 1802. Depois da abolição, o bairro teria se tornado referência para parte da população negra expulsa do centro por políticas higienistas, que ali reconstruiu sua vida e preservou costumes e tradições.
Desde a década de 1980, a igreja e seu entorno são tombados por órgãos de preservação, com limites para a verticalização próxima ao núcleo histórico. Silva afirma, porém, que a igreja e outras edificações protegidas sofrem com a falta de manutenção adequada. O artigo também menciona declarações de agentes públicos sobre a possibilidade de “destombamento” e críticas à caracterização da Penha como um bairro atrasado em comparação com o Tatuapé.
Para o autor, coletivos comunitários mantêm iniciativas culturais e educacionais voltadas à preservação da memória local. A defesa do patrimônio, sustenta, não significa rejeitar o desenvolvimento, mas impedir que novas construções eliminem a história do bairro e desconsiderem a vida de seus moradores.
Ricardo Barbosa da Silva é geógrafo, professor do Instituto das Cidades, Campus Zona Leste da Unifesp, e colaborador do Programa de Pós-graduação ProMuSSP da USP Leste.


