A ideia de que ter filhos assegura cuidados na velhice está perdendo força diante da redução das famílias, do envelhecimento da população e das mudanças nas trajetórias profissionais e pessoais. Pessoas que não pretendem ter filhos passaram a considerar outras formas de apoio, como amizades, parentes, planejamento financeiro e contratação de cuidadores.
A psicóloga Lara Vieira, de 27 anos, decidiu não ser mãe e relaciona essa escolha à experiência profissional com mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Em um dos atendimentos, conheceu uma idosa que tinha filhos, mas não contava com a presença deles. A situação levou Vieira a combinar com uma amiga um plano para o futuro: morar juntas aos 65 anos caso nenhuma das duas estivesse casada, ou acolher aquela que permanecesse solteira.
Para a psicóloga, a existência de filhos não impede a solidão nem garante uma relação de cuidado. Ela afirma que pretende ajudar os próprios pais se for necessário, mas rejeita a ideia de colocar uma criança no mundo com a expectativa de que ela assuma essa responsabilidade mais tarde. “Seria muito mesquinho colocar alguém no mundo já pensando que vai ser uma pessoa para cuidar de mim”, diz.
Famílias menores e população mais velha
O cientista social Jorge Félix, pesquisador do envelhecimento e professor da pós-graduação em gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), considera cultural a associação entre filhos e cuidado na velhice. A rotina de trabalho, a distância entre cidades e países e a vida adulta dos filhos podem limitar a convivência com os pais. Para ele, a ausência não significa necessariamente descaso.
A queda da fecundidade reduziu o número de possíveis familiares disponíveis para cuidar dos idosos. Nos anos 1960, cada mulher em idade reprodutiva tinha, em média, 6,28 filhos. Em 2022, o índice chegou a 1,55 filho por mulher, conforme o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No mesmo Censo, havia mais de 32 milhões de brasileiros com mais de 60 anos. O número representava uma alta de 56% em relação ao levantamento de 2010, e a parcela de idosos deve continuar crescendo nas próximas décadas.
A psicóloga Valmari Aranha, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), afirma que muitas pessoas passaram a priorizar profissão, relacionamentos e outras experiências ao decidir não ter filhos. A maternidade, segundo ela, deixou de ser vista por parte da população como o principal caminho para a realização pessoal.
A socióloga Helena Hirata, diretora emérita de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa da França e pesquisadora convidada do Departamento de Sociologia da USP, observa que a pressão sobre as mulheres diminuiu, embora elas ainda sejam as principais cobradas pela maternidade. A decisão de não ter filhos, afirma, já não provoca o mesmo estranhamento de períodos anteriores.
Redes formadas por amigos e parentes
Com a mudança demográfica, o planejamento da velhice envolve cuidados de saúde, recursos financeiros e a construção de vínculos. A publicitária Preta Araújo, de 34 anos, pretende reservar dinheiro para as despesas futuras e contar com amigos. Ela imagina uma rede formada por pessoas próximas, inclusive com moradias vizinhas para facilitar o apoio mútuo.
Vieira também espera construir relações capazes de acompanhá-la ao longo da vida. Irmãos, sobrinhos e primos próximos aparecem entre as alternativas citadas por especialistas para quem não teve filhos ou não pôde tê-los.
Um estudo publicado no Jama Network Open por pesquisadores da Universidade de Michigan analisou dados de 2,6 mil idosos com limitações para realizar atividades. A pesquisa estimou que cerca de 2 milhões de idosos com limitações recebiam algum tipo de ajuda de amigos, incluindo vizinhos, nos Estados Unidos. O transporte para compras e consultas médicas estava entre as principais tarefas desempenhadas por essas pessoas.
Os idosos que recebiam ajuda de amigos tinham maior probabilidade de morar sozinhos, não serem casados e terem menos filhos. Para Aranha, manter os vínculos sociais é uma forma de enfrentar a solidão, que pode afetar a saúde física, a saúde mental e o processo de envelhecimento.
Casais sem filhos e cuidado profissional
Entre os casais sem filhos, o companheiro pode ser a principal referência de cuidado. O diretor de marketing Fabio Zelenski, de 40 anos, e a estilista Ana Paula Mendes, de 41, estão juntos há oito anos e decidiram não ter filhos. Eles planejam envelhecer juntos e também contam com um círculo de amizades formado em grande parte por pessoas que fizeram a mesma escolha.
O casal afirma que a vida sem filhos permite mais autonomia para viajar e organizar a rotina. Zelenski diz que buscava, no casamento, alguém com quem pudesse envelhecer e manter boas conversas.
A proporção de casais sem filhos dobrou entre 2000 e 2022. Eles eram 12% dos arranjos familiares formados por casais no primeiro ano e chegaram a 24% no segundo. Entre as configurações que ganharam visibilidade estão famílias formadas pela população LGBTQIA+, que nem sempre deseja buscar alternativas para ter filhos.
O psicólogo Marcos Souza, de 37 anos, é casado há mais de uma década. Depois de desistir, com o marido, da ideia de ter um filho, decidiu exercer o papel de tio para as crianças de seus amigos. Para o futuro, ele considera a aposentadoria, a família, as amizades e o próprio cuidado como partes da rede de apoio.
A possibilidade de pagar por serviços também aparece nos planos de quem não pretende ter filhos. Araújo considera guardar dinheiro para viver em um local confortável e não depender de vínculos sanguíneos. Hirata afirma que o envelhecimento amplia a profissionalização do cuidado, com instituições especializadas e cuidadores particulares.
No Brasil, o familiarismo ainda é predominante, porque muitas famílias conseguem cuidar de idosos ou pessoas dependentes. Ao mesmo tempo, a socióloga identifica um movimento de desfamiliarização, no qual o Estado participa mais das responsabilidades de cuidado.
Em dezembro passado, o governo federal lançou o Plano Brasil que Cuida, voltado à implementação de políticas públicas para pessoas que precisam de ajuda e para cuidadores, incluindo idosos. As medidas ainda são incipientes, segundo especialistas, e o governo promete lançar dezenas de iniciativas relacionadas ao projeto nos próximos anos.
Hirata afirma que a profissionalização do cuidado ainda é relativamente recente no Brasil, mas tende a se expandir com o envelhecimento da população. Nesse cenário, a velhice deixa de ser planejada apenas a partir da existência de filhos e passa a envolver uma combinação de relações, recursos e serviços.


