NOVA YORK — A presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, defendeu o diálogo político, a retomada das relações com os Estados Unidos e a realização de eleições no país durante discurso na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, nesta quarta-feira (23). Ela não mencionou Nicolás Maduro, descrito no discurso como sequestrado em uma prisão estadunidense.
Rodríguez classificou a agressão militar do dia 3 de janeiro como uma “confrontação agudizada com os Estados Unidos da América”. Também associou o momento vivido pela Venezuela a dois episódios que chamou de grandes provações: o estrangulamento da vida política interna e o duplo terremoto de 24 de junho.
Relação com os Estados Unidos
A presidenta citou o acordo firmado recentemente com os Estados Unidos para a exploração de petróleo por empresas estrangeiras na Venezuela. Ela agradeceu ao presidente Donald Trump, com quem se reuniu em Nova York na noite de terça (22), para tratar de parcerias estratégicas em energia, mineração e combate ao crime transnacional.
Segundo Rodríguez, o acordo binacional poderá contribuir para o equilíbrio energético do hemisfério e da economia internacional. Ela também mencionou a inteligência artificial como uma área de transformação tecnológica.
No discurso, a governante agradeceu ao governo estadunidense pela disposição de retomar relações diplomáticas e de cooperação com a Venezuela. Rodríguez afirmou que os dois países trabalham para tratar, por meio do diálogo, das diferenças existentes e para preparar iniciativas nas áreas de energia, segurança, combate ao crime transnacional e cooperação econômica.
Ela lembrou que a última reunião entre presidentes da Venezuela e dos Estados Unidos ocorreu no ano de 2009. Ao mesmo tempo, defendeu o fim das sanções econômicas e financeiras e agradeceu à comunidade internacional pela solidariedade diante do terremoto de 24 de junho.
Reforma institucional e eleições
Ao abordar a política interna, Rodríguez anunciou o início de um processo de transformação democrática e institucional. O plano inclui uma reforma do sistema de justiça para assegurar garantias jurídicas a cidadãos e investidores, além de diálogo político com setores da oposição.
A iniciativa, segundo a presidenta em exercício, deve preparar o país para futuras eleições transparentes e inclusivas. Ela afirmou que haverá eleições na Venezuela e que o processo deverá ocorrer em condições de igualdade para os participantes.
Rodríguez também disse esperar que a votação seja realizada em um país não submetido a restrições econômicas. Para ela, a democracia não depende apenas da existência de eleições, mas da qualidade da competição que as antecede.
Durante a fala, a governante mencionou pela primeira vez uma transição democrática e defendeu que os temas internos sejam resolvidos dentro do próprio país. Ela afirmou que mudanças institucionais conduzidas internamente podem produzir transições democráticas sólidas, sem ruptura.
Apelo internacional e disputa territorial
Rodríguez pediu à comunidade internacional que acompanhe e apoie as mudanças na Venezuela, respeitando a autodeterminação do país. Também defendeu o fim do isolamento diplomático ao qual, segundo ela, a Venezuela foi submetida nos últimos anos.
A presidenta em exercício afirmou assumir a responsabilidade de conduzir o país de uma etapa de incerteza e conflito para uma etapa de democracia plena. Ela também pediu relações internacionais sem intromissões e pré-julgamentos.
No fim do discurso, Rodríguez reafirmou os direitos históricos da Venezuela sobre a Guiana Essequiba e defendeu que a disputa territorial com a Guiana seja resolvida por negociações bilaterais. Ela citou o Acordo de Genebra como base para a retomada das conversas.
A Corte Internacional de Justiça analisa um processo movido pelo governo guianês em 2018 para resolver a disputa pela via judicial. A Venezuela não reconhece a competência da corte para julgar o caso e reivindica a validade do Acordo de Genebra, assinado em 1966, que prevê uma solução prática, pacífica e satisfatória para as partes.


