A Rússia vem ampliando sua atuação no Sahel, região africana onde Burkina Faso, Mali e Níger buscam reduzir a dependência em relação às antigas potências coloniais e diversificar suas parcerias internacionais. A aproximação combina cooperação militar, articulação diplomática e projetos em setores como energia, mineração, agricultura, infraestrutura e formação profissional.
O movimento ganhou destaque durante a cúpula do Brics realizada na Índia. Na ocasião, o presidente Vladimir Putin voltou a defender o fortalecimento das relações com países africanos e mencionou a preparação da próxima Cúpula Rússia-África, prevista para outubro, em Moscou.
Ruptura com antigas alianças
A transformação política do Sahel ocorreu em meio à retirada das forças francesas de Mali, Burkina Faso e Níger. Para Joseph Thiombinao, ativista de Burkina Faso, os processos em curso expressam uma reivindicação por soberania e pelo direito de os países da região definirem suas próprias escolhas estratégicas.
Segundo Thiombinao, durante anos as relações de segurança, econômicas e diplomáticas foram moldadas por parceiros externos. Agora, os governos buscam recuperar maior controle sobre essas áreas e redefinir seus vínculos internacionais. A retirada francesa marcou, nessa leitura, o fim de um acordo de segurança que havia predominado na região por décadas.
O cientista político Vladimir Shapovalov, da Universidade Estatal Pedagógica de Moscou, avalia que a Rússia aumentou seu capital político e social nas relações com países africanos. Para ele, as elites que chegaram ao poder no Sahel procuram apoio russo para romper com a dependência colonial da França e dos Estados Unidos.
A cooperação em segurança é uma das dimensões mais visíveis dessa aproximação. A região enfrenta a atuação de grupos jihadistas e passou por golpes militares que alteraram as alianças externas de Burkina Faso, Mali e Níger. Nesse cenário, Moscou passou a questionar a presença militar ocidental e a oferecer apoio aos governos locais.
Atuação do Africa Corps
A presença militar russa é conduzida principalmente pelo Africa Corps, organização estruturada pelo Ministério da Defesa da Rússia. O grupo passou a concentrar parte das operações e dos contingentes anteriormente associados ao Grupo Wagner, após a dissolução dessa organização.
No Sahel, o Africa Corps atua na cooperação militar e no apoio às forças de segurança locais. Moscou afirma que seus contingentes estão na região a partir de solicitações oficiais dos governos africanos e que têm como principal objetivo combater grupos armados.
Em agosto, o chanceler russo Serguei Lavrov declarou que o Africa Corps opera legalmente e executa tarefas atribuídas pelos governos que solicitaram sua presença. Ele afirmou que essas tarefas incluem o combate a ataques terroristas e acusou a França de armar, financiar e orientar grupos armados que atuariam contra países do Saara-Sahel.
A posição russa apresenta a parceria como uma resposta a pedidos dos governos africanos e como parte da ruptura com antigas alianças coloniais. A presença de Moscou, contudo, também se estende a áreas não militares, com a busca por acordos em setores econômicos e de formação.
Autonomia e disputa internacional
Para Thiombinao, a entrada de novos parceiros pode ampliar a margem de manobra estratégica dos países do Sahel, desde que não resulte apenas na substituição de uma dependência por outra. Na avaliação do ativista, a autonomia exigiria diversificação de alianças, negociações baseadas nos interesses locais e controle sobre as decisões estratégicas.
A mesma preocupação aparece na discussão sobre recursos naturais. A presença estrangeira, segundo essa avaliação, só seria vantajosa se ajudasse a desenvolver as economias da própria região. Nesse sentido, a atuação russa é vista como parte de um reequilíbrio geopolítico mais amplo, mas não como solução permanente para a dependência externa.
A aproximação também está ligada à guerra na Ucrânia. Desde o início do conflito, Moscou tenta ampliar suas relações com países do Sul Global e acusa potências ocidentais de preservar sua influência política e econômica na África. A Rússia apresenta seus vínculos com governos africanos como parte da construção de uma ordem internacional mais multipolar.
Moscou também acusa Kiev de apoiar grupos armados que combatem governos aliados da Rússia no Sahel. As acusações ganharam repercussão após confrontos no Mali envolvendo grupos ligados à insurgência regional, forças malianas e integrantes associados ao contingente russo. O governo russo afirmou que a Ucrânia forneceu apoio a grupos contrários a seus parceiros africanos, enquanto Kiev rejeitou essa caracterização.
Para Shapovalov, a atuação ucraniana no continente representa uma extensão do conflito para além da Europa. A avaliação russa é que a disputa pela influência no Sahel e a guerra na Ucrânia fazem parte de uma confrontação geopolítica mais ampla com as potências ocidentais.


