A notícia e o que está por trás
Economia

Cinema brasileiro debate distribuição, regulação e formação de público

Participantes do Festival de Brasília defendem política integrada para ampliar a audiência e reduzir a dependência do audiovisual estrangeiro.

Cinema brasileiro debate distribuição, regulação e formação de público

O cinema brasileiro precisa de uma política que vá além do financiamento à produção. Essa foi a principal conclusão do primeiro painel de debates do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que discutiu formas de ampliar a audiência nacional por meio de ações articuladas de produção, distribuição, exibição, regulação e formação de público.

A avaliação apresentada pelos participantes é que o país produz obras, mas encontra dificuldades para fazê-las chegar às salas, às emissoras de televisão e às plataformas digitais. Esse descompasso limita a participação dos filmes nacionais no mercado interno e mantém uma dependência histórica em relação às grandes empresas estrangeiras.

Uma disputa histórica pelo mercado

A cineasta Tatá Amaral afirmou que a ausência de uma estratégia para o setor contribui para a permanência do audiovisual brasileiro em uma posição de dependência. Ela relacionou esse processo à colonização cultural e ao extrativismo econômico, destacando que a disputa não se limita à presença de filmes nas telas, mas envolve também os direitos, os recursos e a capacidade de decisão sobre a produção nacional.

Amaral recorreu a um texto de Carmem Santos, publicado na revista A cena muda em 1931, para mostrar que a discussão sobre a construção de um cinema brasileiro é antiga. A atriz, roteirista e cineasta defendia que o país tinha artistas, técnicos e capacidade para produzir seus próprios filmes, mas precisava tratar o cinema como uma questão nacional, e não apenas como atividade econômica.

Rodrigo Siqueira também situou o problema em uma perspectiva histórica. Segundo o cineasta, entre 1915 e 1939 o mercado brasileiro chegou a ser ocupado quase integralmente pelo cinema norte-americano, enquanto a produção nacional não alcançava 5% do próprio mercado. Para ele, essa hegemonia se prolongou com a atuação de empresas que representam corporações estrangeiras no país, entre elas Walt Disney, Paramount, Universal, Warner e Netflix.

Siqueira afirmou que a concentração estrangeira não se restringe à venda de filmes. Na avaliação dele, as empresas atuam para ampliar o espaço de suas produções e preservar uma posição dominante no mercado. O cineasta também disse que o crescimento das plataformas de streaming reproduz essa relação de dependência em outra configuração, ao utilizar profissionais e capacidade de produção brasileiros sem assegurar necessariamente que a riqueza gerada e os direitos econômicos permaneçam no país.

O papel da regulação

Para Siqueira, os períodos de expansão do cinema brasileiro estiveram associados a medidas estatais. Ele citou 1939, quando foi criada uma cota de tela para filmes nacionais, como um momento de intervenção que permitiu elevar, ainda que gradualmente, a participação brasileira. Posteriormente, a exigência foi ampliada para três filmes e, depois, para um filme brasileiro a cada oito produções norte-americanas.

O cineasta também mencionou a criação da Embrafilme durante a ditadura militar. Segundo ele, a empresa combinava financiamento, organização do setor e reserva de espaço para os filmes brasileiros, permitindo que a produção nacional ocupasse o próprio mercado e buscasse também o exterior. Esse ciclo perdeu força na metade dos anos 1980, quando a crise econômica e a pressão estrangeira contribuíram para o enfraquecimento da Embrafilme.

Siqueira relacionou ainda o encerramento da Embrafilme e do Ministério da Cultura, durante o governo de Fernando Collor de Melo, à paralisação da produção brasileira no começo dos anos 1990. A reconstrução posterior, segundo ele, passou pela criação da Lei do Audiovisual.

A experiência histórica foi apresentada como argumento para a formulação de uma política de Estado. Para Siqueira, não basta garantir a participação de profissionais brasileiros em obras financiadas por empresas estrangeiras. Também seria necessário assegurar a permanência dos direitos econômicos e autorais no país e fortalecer os produtores independentes.

Produção sem público

O produtor cinematográfico Nilson Rodrigues avaliou que o incentivo à produção, isoladamente, não garante a formação de um mercado. Para ele, a política pública precisa acompanhar todo o ciclo do audiovisual, desde a realização do filme até sua chegada ao espectador.

Rodrigues afirmou que a produção de 300 filmes brasileiros por ano teria pouco efeito sobre o setor se essas obras não encontrassem seu público. Na avaliação dele, produção, distribuição e exibição devem ser tratadas como pilares de uma mesma política, com metas de ocupação do mercado, avaliação dos resultados e revisão das medidas adotadas.

O produtor considerou a cota de tela necessária, mas insuficiente. Ele citou o desempenho de 3,1% de participação de mercado do cinema brasileiro, enquanto o público geral das salas havia aumentado 20%. Para Rodrigues, obrigar uma sala a exibir um filme sem destinar recursos à divulgação pode garantir apenas a presença formal da obra, sem criar condições para que ela atraia espectadores.

A formação de público foi apontada como outra frente decisiva. Rodrigues defendeu que crianças e jovens tenham contato com filmes brasileiros antes de chegar ao circuito comercial. A lógica, segundo ele, é criar familiaridade com a produção nacional desde cedo, em vez de esperar que o interesse surja espontaneamente na vida adulta.

O produtor também defendeu a regulação das plataformas de streaming para ampliar a presença de obras brasileiras e criar novas fontes de financiamento. A proposta inclui o direcionamento de recursos ao Fundo Setorial do Audiovisual. Ele estendeu a mesma preocupação à televisão aberta, que, em sua avaliação, também deveria assegurar espaço para filmes nacionais.

Dados para orientar a política

Tatá Amaral propôs a criação de grupos de trabalho e conselhos com participação da sociedade civil para estabelecer objetivos concretos para as diferentes janelas de exibição. A cineasta afirmou que faltam informações suficientes sobre a presença de conteúdos brasileiros na televisão aberta, na televisão fechada e nos serviços de streaming.

A proposta inclui pressionar a Agência Nacional do Cinema e o Ministério da Cultura pela produção e divulgação de dados sobre oferta e audiência. Amaral também defendeu pesquisas para identificar o potencial de crescimento do público brasileiro no próximo ano ou em dois anos. Sem saber quem assiste, onde está esse público e como ele se relaciona com as obras nacionais, a formulação de políticas fica limitada.

A estratégia defendida no painel combina diagnóstico, regulação e ações de formação de audiência. Para os participantes, fortalecer o mercado interno exige que produção, distribuição, exibição, televisão, salas de cinema e plataformas digitais deixem de ser tratados como áreas separadas. A construção de uma indústria nacional, nesse entendimento, depende da articulação dessas frentes e de uma decisão política de longo prazo.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.