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Política

Apoio evangélico a Augusto Cury tensiona disputa com o bolsonarismo

Influenciadores e lideranças defendem voto por convicção, enquanto setores bolsonaristas associam o candidato à esquerda.

Como Augusto Cury mobiliza evangélicos nas redes e incomoda o bolsonarismo
Foto: Lima Andruška/Wikimedia Commons

O crescimento de Augusto Cury nas pesquisas presidenciais abriu uma disputa dentro do campo evangélico. Enquanto influenciadores e lideranças religiosas defendem o candidato como uma opção cristã, sem interesse pessoal no poder e guiada por propósito, setores bolsonaristas tentam vinculá-lo à esquerda e o apresentam como um possível “cavalo de Troia” eleitoral.

No levantamento BTG/Nexus, Cury avançou de 2% para 11% das intenções de voto entre as duas últimas rodadas. A AtlasIntel registrou alta de 3% para 7,8%. Na Quaest, o candidato chegou a 10%; no Datafolha, marcou 8% e apareceu em terceiro lugar, atrás de Lula, com 38%, e Flávio Bolsonaro, com 33%.

A mobilização nas redes cristãs

A movimentação de apoio, porém, começou antes da divulgação desses resultados. Influenciadores e lideranças religiosas e políticas, sobretudo ligados à direita, passaram a apresentar Cury como um homem de fé, serviço e propósito. Um dos argumentos mais recorrentes é o de que ele já teria alcançado sucesso fora da política e, por isso, não precisaria de um cargo público para obter dinheiro ou poder.

O monitoramento foi registrado no relatório Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. O estudo acompanha discursos que circulam na interseção entre religião e política no ambiente evangélico e analisou publicações feitas entre 17 e 30 de agosto.

Uma publicação do influenciador Raphael Soares em defesa de Cury alcançou 1,4 milhão de interações e esteve entre os conteúdos mais repercutidos no período. A pastora Fabiola Melo, que tem mais de 3 milhões de seguidores, também declarou apoio. Em resposta a uma seguidora preocupada com a possibilidade de o voto beneficiar Lula, afirmou que “muitos não sabem, mas ele é crente” e defendeu uma escolha baseada em convicção, e não no medo, durante o primeiro turno.

Portais evangélicos também passaram a destacar a trajetória de Cury como ex-ateu que teria se tornado um “cristão sem fronteiras” ao estudar a mente de Cristo. Outras publicações trataram sua entrada na política como um envio divino e relacionaram mudanças de voto entre eleitores de diferentes correntes a um acontecimento milagroso.

O apoio de Pablo Marçal e a reação bolsonarista

A candidatura também recebeu o apoio de Pablo Marçal. Ele associou o sobrenome de Cury à “cura do Brasil” e disse identificar nos dois a disposição de servir ao país e o êxito profissional. Essa aproximação foi usada para sustentar a ideia de que nenhum dos dois teria interesse em se beneficiar da estrutura pública.

Em uma publicação conjunta, Marçal declarou seu voto e chamou Cury de homem nobre. O candidato agradeceu e afirmou que sua candidatura nasceu de um propósito. Marçal ainda defendeu que o eleitor escolha Cury no primeiro turno, mesmo diante do argumento de que candidaturas alternativas poderiam favorecer Lula. Para ele, esse momento deveria ser reservado à escolha de quem o eleitor realmente apoia.

Na mesma linha, argumentou que uma candidatura como a de Cury poderia atrair indecisos, eleitores sem esperança ou pessoas que planejavam votar em branco ou nulo. Também sustentou que diferentes nomes da direita poderiam ter bom desempenho no primeiro turno e convergir contra o governo em uma eventual segunda rodada.

As manifestações provocaram reação de setores bolsonaristas do campo evangélico. Cury passou a ser criticado por estar em um partido que esses perfis apontam como aliado ao PT e foi descrito como um candidato de esquerda. A imagem do “cavalo de Troia” procura sugerir que sua candidatura esconderia posições diferentes daquelas identificadas por parte de seu público cristão.

A defesa da pacificação e da união também foi usada pelos críticos para contestar a virtude atribuída ao candidato. Trechos de livros de Cury voltaram a circular, entre eles uma passagem de Dez leis para ser feliz em que o autor elogia o choro de Lula durante um discurso realizado em 2013. O pastor Wesley Ros publicou o trecho ao se identificar como “ex-admirador e ex-leitor”.

Disputa sobre o voto cristão

Nesse ambiente, Flávio Bolsonaro aparece para os setores bolsonaristas como a opção mais viável para derrotar Lula. O contraste é entre uma campanha que pede voto por convicção e outra que prioriza a viabilidade eleitoral. As críticas também questionam a posição política de Cury e os valores religiosos mobilizados por seus apoiadores.

O relatório situa esse embate na eleição de 2026, marcada por diferentes tentativas de definir quais valores devem orientar o voto cristão. No caso de Cury, seus defensores recorrem a propósito, virtude, serviço e convicção. Seus adversários, por outro lado, usam as posições do candidato sobre pacificação e união para contestar sua legitimidade política e religiosa.

A mobilização também desafia a associação automática entre voto evangélico e bolsonarismo. Muitas lideranças religiosas e influenciadores cristãos que haviam apoiado publicamente Jair Bolsonaro em 2022 ainda não tinham se posicionado nesta eleição.

Para os autores do monitoramento, o discurso do “voto com propósito” pode oferecer uma alternativa menos radical a lideranças religiosas que apoiaram o bolsonarismo e foram cobradas, em igrejas e comunidades digitais, por sua associação com pautas armamentistas e antidemocráticas. O relatório também relaciona a aproximação entre mensagens de fé e conteúdos motivacionais à transformação das práticas religiosas e da presença digital de igrejas e lideranças evangélicas no Brasil.

Ainda não há elementos, segundo a análise apresentada, para determinar como esse movimento afetará o comportamento eleitoral. A disputa, por enquanto, se manifesta nas redes e na forma como diferentes grupos tentam definir o sentido do voto cristão.

Andréa Laís atua como assessora de campanhas da Casa Galileia, tem doutorado em Ciências Sociais e pesquisa religião. Lorena Mochel é antropóloga, trabalha como assessora de pesquisa na Casa Galileia e realiza pesquisa de pós-doutorado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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