A artista visual e psicanalista Toia Lemann construiu uma marca de roupas a partir da combinação entre arte, memória e referências brasileiras. Embora não se defina como estilista, ela cria estampas e orienta coleções atemporais, com apoio de uma equipe responsável pela modelagem e pelo acabamento das peças.
A marca foi lançada em 2018, no Rio de Janeiro, em uma cobertura na Dias Ferreira, no Leblon. O espaço funcionava ao mesmo tempo como loja e galeria: exposições de artistas acompanhavam os lançamentos, e cada coleção incluía uma peça produzida a partir de um dos trabalhos apresentados.
Inicialmente, Toia utilizava nas roupas as obras de sua mãe, Maria Quental. Depois, passou a trabalhar também com criações de outros artistas. A pandemia levou ao fechamento da loja, e a marca retomou sua trajetória em São Paulo, onde mantém uma unidade no Shopping Iguatemi desde 2024.
“Não me defino como estilista, porque não sou”, afirma Toia. Ela diz que não acompanha tendências e escolhe os caminhos de suas peças a partir do que gosta. Como não domina a confecção, recorre a uma consultoria para aperfeiçoar a modelagem e adaptar os produtos às necessidades comerciais.
A próxima coleção, Eu vim da Bahia, será lançada em setembro. O tema se relaciona às origens familiares de Toia e às férias passadas na Bahia, na fazenda de sua avó paterna, Yvette Lemann. A artista recorda as propriedades da família em Ilhéus, com casarões sem luz elétrica, fogão a lenha, lampiões e passeios a cavalo ou de mula entre cacaueiros.
Toia, diminutivo de Anna Victoria Lemann, tem 60 anos. É filha do empresário Jorge Paulo Lemann, cuja família aparece na terceira maior fortuna do país na lista da Forbes deste ano, com patrimônio de US$ 19,7 bilhões. Ela, no entanto, mantém a vida pessoal reservada.
Da psicanálise às artes visuais
Antes de se dedicar à marca, Toia trabalhou como psicanalista em hospitais psiquiátricos e no Judiciário. A morte da mãe desencadeou uma crise que a levou a mudar de profissão. Maria Quental também era psicanalista, e as duas fizeram formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise, de orientação freudiana, com influência da escola inglesa de Melanie Klein e Donald Winnicott.
A relação com a obra materna esteve ligada, segundo Toia, ao período de luto. Mais tarde, ela decidiu substituir esse material por seus próprios trabalhos. Sua produção combina lápis, grafite, pastel, colagem e aquarela. “Raspas e restos” são elementos que a interessam.
Além das roupas, Toia já criou almofadas, papéis de parede e jogos americanos. Sua produção pode ser encontrada no comércio eletrônico, na loja do Shopping Iguatemi e no Mata Lab, no complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo. No Rio de Janeiro, atende clientes no próprio ateliê.



