SÃO PAULO — Uma coleção de 69 gravuras de Rembrandt expõe, na Caixa Cultural, como o artista holandês usou imagens pequenas para desenvolver ideias, testar técnicas e fazer seu nome circular além da Holanda. As obras integram a exposição Rembrandt — O Mestre da Luz e da Sombra e pertencem a uma coleção particular italiana.
A gravura ocupou um lugar específico na trajetória de Rembrandt Harmenszoon van Rijn. Nascido em 15 de julho de 1606, em Leiden, ele se mudou para Amsterdã aos 25 anos e produziu mais de trezentas gravuras ao longo da carreira. No chamado Século de Ouro dos Países Baixos, período de expansão comercial, científica e cultural da região, encontrou nessa técnica um meio de experimentar e disseminar seu trabalho.
Uma obra em transformação
Para Luca Baroni, curador da exposição, as gravuras funcionavam de maneira diferente das pinturas porque podiam circular entre pessoas e lugares. “Uma pintura permanece em uma casa, coleção ou igreja; uma gravura circula”, afirma. Segundo ele, essas imagens eram tecnologias de comunicação da Europa moderna e ajudavam a construir reputações antes da fotografia ou da internet.
A mostra também apresenta a gravura como um processo aberto. Conforme a pesquisadora Svetlana Alpers descreve em O Projeto Rembrandt, o artista retrabalhava as matrizes e criava diferentes estados de uma mesma imagem. Ao alterar a luz, fazer figuras desaparecerem ou reforçar sombras, produzia novas impressões a partir da mesma placa.
Essa característica influenciava o interesse dos colecionadores. Como as diferenças entre os estados permitiam reunir versões de uma imagem e completar séries, cada impressão podia ter valor próprio. Baroni define esse sistema como um “múltiplo original”: uma obra que existe não apenas como objeto, mas também como sequência de mudanças.
Na exposição, não há exemplares de estados diferentes produzidos a partir da mesma matriz. Ainda assim, a relação de Rembrandt com a variação aparece em trabalhos que tratam o mesmo tema de formas distintas. A Adoração dos Pastores: cena noturna, de 1652, combina água-forte e ponta-seca para construir contrastes entre luz e sombra. Já A Adoração dos Pastores: com a Lâmpada, de 1654, usa água-forte e apresenta um desenho mais marcado.
Pequenas dimensões, cenas complexas
A maioria das obras tem dimensões próximas às de uma figurinha de álbum da Copa do Mundo. Mesmo nesse espaço reduzido, Rembrandt concentrava personagens, planos, diagonais e feixes de luz. Em A Descida da Cruz, de 1633, esses elementos organizam a cena, criam profundidade e conduzem o olhar por meio da perspectiva e do claro-escuro.
Autorretrato com Saskia, de 1636, reúne a representação do casal e a imagem do artista em atividade. Rembrandt aparece usando um chapéu de abas largas, ao lado de Saskia, sua esposa. Sobre a mesa há uma folha de papel, e ele segura um pequeno instrumento de desenho. Feita em água-forte, a obra marca a primeira vez que o artista se apresentou, em uma gravura, trabalhando como artista.
A exposição reúne cenas bíblicas, paisagens, retratos de filósofos e imagens relacionadas ao trabalho e à vida urbana. A variedade temática acompanha a diversidade de técnicas: Rembrandt combinava água-forte e ponta-seca e, em algumas obras, também utilizava o buril. A Estrela dos Reis: cena noturna, de 1651, reúne as três.
A mostra já passou pelo Rio de Janeiro, por Belo Horizonte e por Vitória. Em São Paulo, permanece até 27 de setembro. As gravuras continuam viajando, agora diante de novos públicos, mantendo a característica que marcou seu uso desde a Europa moderna: a possibilidade de levar imagens, experiências e versões do trabalho de Rembrandt para além do lugar onde foram produzidas.



