O saneamento básico ainda revela desigualdades profundas no Brasil e, no Paraná, os planos de governo de Requião Filho (PDT), Sandro Alex (PSD) e Sérgio Moro (PL) apresentam respostas diferentes para o problema. As propostas variam entre uma abordagem centrada em infraestrutura e desenvolvimento econômico e outra que trata o saneamento como direito social e instrumento de redução das desigualdades.
A discussão envolve mais do que a expansão das redes de água e esgoto. Também estão em jogo a capacidade de pagamento das famílias, as diferenças entre áreas urbanas e rurais e os efeitos de inundações, estiagens e contaminação de recursos hídricos sobre populações vulneráveis.
A dimensão do problema
O escritor Mario Vargas Llosa (1936-2025), no ensaio “O cheiro da pobreza”, usou as condições de uma instalação sanitária precária para refletir sobre a relação entre saneamento, desenvolvimento e abandono. A imagem descrita por ele remete a um problema que continua presente em diferentes partes do país.
Em 2026, o Observatório Nacional de Direito à Água e ao Saneamento (Ondas) registrou que a defecação ao ar livre ainda faz parte do cotidiano de moradores de Tefé (AM). O direito humano à água e ao saneamento foi reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 28 de julho de 2010, por meio da Resolução 64/292, mas sua efetivação permanece incompleta.
A Lei Federal nº 14.026/2020 define o saneamento básico como o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações relacionados ao abastecimento de água potável, ao esgotamento sanitário, à limpeza urbana, ao manejo de resíduos sólidos e à drenagem das águas pluviais urbanas.
Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA), referentes a 2025, indicam que 84,1% da população brasileira têm acesso à rede de abastecimento de água e 62,3% contam com rede coletora de esgoto. A média nacional, porém, esconde diferenças expressivas entre os territórios.
Nas áreas urbanas, 92,3% da população têm acesso à água potável por rede de abastecimento. Entre os moradores da área rural, apenas 22,9% dispõem de soluções consideradas adequadas e seguras. No esgotamento sanitário, a cobertura urbana chega a 68,4%, enquanto somente 4,8% da população rural conta com soluções adequadas para coleta, afastamento ou tratamento.
No Paraná, os dados oficiais da concessionária estadual apontam cobertura de 100% no abastecimento de água e de 82% na rede urbana de esgoto. Municípios como Maringá, Cascavel, São José dos Pinhais e Curitiba aparecem entre os mais bem posicionados no Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil.
Esses indicadores, no entanto, não mostram toda a extensão da exclusão. As bases do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) apontam que aproximadamente 2,9 milhões de pessoas vivem em residências sem rede coletora de esgoto no estado. Também há cerca de 547,5 mil cidadãos sem conexão com a rede pública de água potável. O problema alcança famílias em bordas metropolitanas, ocupações informais, fundos de vale e regiões rurais.
Acesso e capacidade de pagamento
A existência de uma rede não assegura, sozinha, o exercício do direito à água e ao saneamento. Para que o serviço seja utilizado de forma regular, as famílias precisam conseguir pagar as tarifas sem comprometer de maneira desproporcional a renda doméstica.
A Lei Federal nº 14.898, sancionada em junho de 2024, estabeleceu diretrizes nacionais para a Tarifa Social de Água e Esgoto. A categoria prevê desconto de 50% na primeira faixa de consumo, de 15 metros cúbicos, para famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e para famílias com pessoa com deficiência ou idoso beneficiário do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
A aplicação do benefício, porém, pode ser dificultada por exigências como posse formal do terreno com averbação cartorial, vistorias prediais e limite de área construída de até 70 metros quadrados. Com isso, famílias que vivem em loteamentos irregulares, ocupações consolidadas ou áreas informais podem ficar fora da política pública. Entre os efeitos apontados estão ligações irregulares, contaminação, insegurança hídrica, inadimplência e cortes no fornecimento.
Os sistemas também são pressionados por eventos climáticos. Inundações, estiagens e contaminação de mananciais podem afetar o abastecimento, provocar extravasamentos de esgoto e ampliar riscos sanitários, sobretudo em áreas socialmente vulneráveis.
O que dizem os planos de governo
A análise dos programas dos três candidatos identifica duas orientações principais. Nos planos de Sérgio Moro e Sandro Alex, o saneamento aparece sobretudo como infraestrutura estratégica para o desenvolvimento econômico e a competitividade dos territórios. Nessa abordagem, ganham espaço investimentos, eficiência operacional, expansão das redes e modernização dos sistemas.
No caso de Sandro Alex, essa visão também é associada à sustentabilidade, à resiliência e ao uso de tecnologias de monitoramento ambiental para apoiar o planejamento e a gestão pública.
O plano de Requião Filho apresenta outra perspectiva: o saneamento é tratado como direito social e mecanismo de enfrentamento das desigualdades territoriais e socioambientais. A proposta dá destaque à universalização do acesso, à proteção de populações vulneráveis, ao fortalecimento da tarifa social e à ampliação dos serviços em áreas rurais, periferias urbanas e assentamentos precários.
Essa abordagem também relaciona saneamento e adaptação às mudanças climáticas. Entre os temas mencionados estão a proteção de mananciais, a drenagem urbana, a gestão de riscos, a segurança hídrica e a prevenção de desastres.
Para avaliar as propostas, os eleitores podem observar três pontos. O primeiro é a existência de estratégias concretas para levar água e esgotamento sanitário às populações ainda excluídas e cumprir as metas de universalização até 2033. O segundo é a forma como cada candidatura pretende garantir que famílias de baixa renda consigam pagar pelos serviços. O terceiro é saber se o saneamento está integrado a políticas de enfrentamento das mudanças climáticas, com ações de segurança hídrica, drenagem urbana e prevenção de desastres.
A comparação, portanto, não se limita ao volume de obras ou investimentos prometidos. Ela ajuda a identificar quais territórios, grupos sociais e problemas públicos cada projeto tende a colocar no centro das políticas de governo.


