ANTÁRTIDA — A área afetada pela redução do ozônio começou a se expandir antes da média anual em 2026 e alcançou 27,4 milhões de km² no início de setembro. O tamanho coloca o episódio entre os mais extensos já observados para esse período, mas não indica, por si só, uma interrupção na recuperação da camada de ozônio.
Pesquisadores da Universidade de Otago e do Instituto Nacional de Pesquisa da Água e da Atmosfera, na Nova Zelândia, haviam identificado meses antes sinais de uma temporada mais intensa. Observações por satélite feitas em maio apontaram alterações na composição e na circulação da atmosfera, compatíveis com a formação de um vórtice polar mais frio e resistente.
Área extensa não significa maior profundidade
O chamado buraco de ozônio não é uma abertura física na atmosfera. A expressão designa uma região em que a concentração do gás diminui acentuadamente, processo que ocorre principalmente na primavera antártica.
A dimensão registrada em setembro foi favorecida por temperaturas muito baixas na estratosfera e pela presença de um vórtice polar intenso. Esse sistema reúne correntes de ar que circulam ao redor da Antártida durante o inverno. Quando permanece frio e estável, ele mantém o ar sobre a região por mais tempo e cria condições para a destruição do ozônio.
As baixas temperaturas também favorecem a formação de nuvens estratosféricas polares. Nessas nuvens, reações químicas transformam compostos atmosféricos em substâncias capazes de destruir moléculas de ozônio.
Embora a superfície afetada tenha sido excepcionalmente grande, o episódio não foi tão profundo quanto alguns dos maiores buracos registrados no passado. Isso significa que a concentração de ozônio não caiu de maneira igualmente extrema em toda a área. Por essa razão, a quantidade total de ozônio perdida foi menor que em episódios historicamente mais severos.
A área é apenas um dos indicadores usados para medir a intensidade do fenômeno. A duração e a dinâmica dos ventos também influenciam a avaliação feita pelos pesquisadores.
Projeção para os próximos meses
As observações realizadas em setembro ficaram de acordo com as previsões iniciais. Se as condições atmosféricas permanecerem semelhantes, a expectativa é que o buraco continue significativo durante outubro e novembro.
“Podemos esperar que 2026 tenha uma classificação geral entre os dez buracos na camada de ozônio mais graves de todos os tempos”, afirmaram os especialistas. A classificação ainda depende da evolução da circulação atmosférica nas semanas seguintes.
O episódio ocorre após uma sequência de buracos grandes e persistentes observados entre 2020 e 2023. Entre os fatores associados a esses eventos estão a fumaça dos incêndios florestais ocorridos na Austrália em 2019 e 2020, os aerossóis liberados pela erupção do vulcão La Soufrière, no Caribe, em 2021, e os efeitos da erupção do vulcão submarino Hunga Tonga–Hunga Haʻapai, em 2022. Este último episódio foi relacionado ao início antecipado da destruição do ozônio em 2023.
Recuperação de longo prazo
A redução das substâncias destruidoras do ozônio desde a adoção do Protocolo de Montreal, em 1987, mantém a expectativa de recuperação da camada. Episódios recentes, porém, indicam que fatores naturais e mudanças na circulação atmosférica podem provocar grandes variações entre um ano e outro.
O buraco também pode influenciar a circulação atmosférica em áreas do Hemisfério Sul, alterando padrões de vento, temperatura e chuva. Um dos padrões relacionados a esse processo é o SAM, ou Modo Anular Sul, que descreve mudanças na posição e na intensidade dos ventos ao redor da Antártida.
A recuperação completa é projetada para ocorrer antes de 2090. A persistência do buraco até o fim da primavera tem sido mais frequente nos últimos anos, o que pode tornar o processo mais demorado. Ainda assim, a extensão registrada em setembro de 2026 não significa que os mecanismos de recuperação tenham deixado de funcionar.


