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Ciência

Chumbo em tintas pode ajudar a decifrar papiros de Herculano

Experimentos com rolos queimados indicam que o metal cria contraste em imagens de raios-X, mas a técnica ainda não foi testada nos originais.

Chumbo em tintas pode ajudar a decifrar papiros de Herculano

HERCULANO, ITÁLIA — Pesquisadores fabricaram e queimaram rolos de papiro para reproduzir em laboratório os danos causados pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. O experimento mostrou que o chumbo presente na tinta pode destacar as letras em imagens de raios-X e ajudar a selecionar quais manuscritos originais devem ser examinados primeiro.

Os papiros pertencem à maior biblioteca sobrevivente do mundo greco-romano e incluem muitas obras de autores epicuristas. Mais de 600 rolos continuam fechados, guardados principalmente na Biblioteca Nacional de Nápoles. O calor os deixou carbonizados, retorcidos e muito frágeis, o que impede o desenrolamento convencional sem risco de destruição.

Como o chumbo aparece nas imagens

O estudo, publicado em setembro na revista científica PLOS One, investigou uma dificuldade central da leitura dos manuscritos. Depois da carbonização, a tinta à base de carbono e o papiro passam a ser muito semelhantes nos exames de raios-X. Como o chumbo bloqueia mais radiação do que o carbono, ele produz um contraste capaz de separar o desenho das letras do material ao redor.

Douglas Seiler, primeiro autor da pesquisa e cientista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, usou papiro produzido no Egito e preparou tintas com diferentes concentrações de chumbo. Estudantes escreveram trechos de “Star Wars”, da Bíblia e da série “The Outer Limits”. Os rolos foram então queimados em uma fornalha.

Nas imagens obtidas depois da queima, as letras continuaram visíveis mesmo na menor concentração avaliada: 25 microgramas por centímetro quadrado. A primeira indicação de que o metal poderia estar presente nos manuscritos antigos surgiu em uma pesquisa de 2016, que encontrou chumbo nas letras de dois fragmentos de Herculano. Ainda não se sabe quão comum era o uso do elemento nem qual era sua função. Ele pode ter feito parte do pigmento ou contribuído para a secagem da tinta.

O físico Vito Mocella, do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália (CNR) e coautor daquela pesquisa, considerou promissora a estratégia para a leitura dos papiros. O novo trabalho também propõe usar fluorescência de raios-X (XRF) para localizar o chumbo sem encostar nos rolos. O método não decifra o texto, mas pode funcionar como triagem antes de tomografias de alta resolução.

“Se houver chumbo nos rolos, muito provavelmente conseguiremos lê-los”, escreveu Seiler. Até agora, porém, o procedimento só foi demonstrado em papiros modernos produzidos e queimados em laboratório. Para Jacob LaManna, físico do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) e coautor do estudo, a triagem da coleção de Nápoles poderia começar quando houvesse autorização para acessá-la.

Tomografia e inteligência artificial

Os modelos feitos no laboratório também servem para verificar os algoritmos. Como os pesquisadores conhecem previamente o conteúdo escrito e a composição das tintas, podem comparar o texto original com a reconstrução computacional. LaManna relatou que o efeito do chumbo apareceu na primeira imagem registrada pelo detector, assim que o feixe de raios-X foi ligado.

A leitura dos manuscritos antigos exige outras etapas. Tomografias produzem imagens tridimensionais do interior dos rolos; programas reorganizam as folhas em um desenrolamento virtual; e sistemas de inteligência artificial ajudam a identificar a tinta e reconstruir as palavras.

Esses processos são aprimorados pela iniciativa Vesuvius Challenge. Em junho, pesquisadores do projeto conseguiram ler integralmente o conteúdo preservado de um rolo fechado, o PHerc. 1667. A análise recuperou cerca de 1,4 metro de superfície escrita e partes de 22 colunas em grego de um tratado de ética relacionado ao estoicismo.

A iniciativa também promove uma competição, com dados e ferramentas para os participantes e premiações para avanços na leitura. Em 2023, uma equipe de nove integrantes, majoritariamente brasileira, empatou em segundo lugar com outras duas equipes no principal prêmio e recebeu US$ 50 mil. O grupo incluía Odemir Martinez Bruno, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP (Universidade de São Paulo).

Bruno afirmou que o desafio é diferenciar a tinta do papiro sem tinta e destacou a importância da qualidade das imagens para o desempenho da inteligência artificial. Ele também considera possível reduzir o custo dos exames e, com os mesmos recursos, analisar uma quantidade maior de rolos.

O que ainda pode ser descoberto

Entre 1752 e 1754, foram recuperados cerca de 1.800 fragmentos na Villa dos Papiros, provavelmente equivalentes a aproximadamente 800 volumes. Parte do local ainda não foi escavada, segundo a Herculaneum Society. O filósofo britânico Richard Sorabji especulou que novas escavações poderiam revelar obras perdidas de Aristóteles.

A maior parte dos textos de Herculano já decifrados está ligada ao epicurismo, corrente filosófica grega difundida no mundo romano. O que restou de Epicuro é escasso, embora Diógenes Laércio, autor grego do século 3º, tenha atribuído ao filósofo a autoria de cerca de 300 rolos.

Markus Figueira da Silva, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que estuda Epicuro desde os anos 1990, avalia que as novas técnicas podem preencher lacunas nos textos epicuristas. Ele ressalva, porém, que não há garantia de que isso ocorra, pois o resultado dependerá das pesquisas em andamento.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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