Uma placa de calcário mantida no Het Romeins Museum, em Heerlen, nos Países Baixos, pode ter sido usada em um jogo de tabuleiro romano até então desconhecido. A hipótese surgiu depois que pesquisadores identificaram marcas de desgaste na superfície e compararam esses sinais com partidas simuladas por inteligência artificial.
O objeto tem formato oval, mede 20 por 15 cm e apresenta retângulos e linhas. Durante décadas, foi interpretado como um fragmento quebrado de material arquitetônico reaproveitado. Em 2020, o arqueólogo Walter Crist, da Universidade de Leiden, examinou a peça durante uma visita ao museu e percebeu sulcos compatíveis com o deslocamento repetido de peças.
Das marcas às regras
A equipe produziu escaneamentos 3D de alta resolução para registrar imperfeições microscópicas no calcário. A análise indicou que algumas linhas haviam sido mais utilizadas do que outras. Para Crist, esse padrão era compatível com uma superfície de jogo, e não apenas com um desenho decorativo.
Os dados foram inseridos no Ludii, uma plataforma de inteligência artificial treinada com cerca de 100 jogos de tabuleiro da Roma Antiga. Os pesquisadores programaram 130 combinações de regras e testaram milhares de cenários, comparando os caminhos percorridos nas simulações com os sulcos encontrados na pedra.
O sistema apontou nove conjuntos plausíveis de regras. Em todas as variantes consideradas compatíveis, o objetivo seria bloquear o adversário e encurralá-lo nos cantos do tabuleiro. A reconstrução recebeu o nome de ludus coriovalli, ou jogo de Coriovallum, referência ao antigo nome romano de Heerlen.
Uma hipótese em disputa
Segundo Crist, o jogo provavelmente era disputado por duas pessoas que deslizavam pequenas peças de vidro, osso ou cerâmica ao longo das linhas. A proposta contrasta com a ideia de que jogos baseados em estratégias complexas de bloqueio só teriam surgido muito mais tarde, durante a Idade Média.
A interpretação se insere em uma história mais ampla dos jogos romanos. Registros escritos e vestígios arqueológicos mencionam o rota, semelhante ao jogo da velha; o ludus calculorum, comparado ao Gomoku; e o ludus latrunculi, considerado um precursor do xadrez. Também foram encontrados tabuleiros de ludus duodecim, semelhante ao gamão, com provocações escritas em latim.
Veronique Dasen, da Universidade de Friburgo, afirmou que a pesquisa trata de uma dificuldade central da arqueologia dos jogos: deduzir regras a partir de objetos materiais. Para ela, métodos tecnológicos podem ajudar a identificar outros tabuleiros ainda não reconhecidos em sítios romanos.
A conclusão, porém, não é consensual. Ulrich Schadler, também da Universidade de Friburgo e diretor do Museu Suíço dos Jogos, considera atípicas as linhas retas e desconectadas da peça de Heerlen, quando comparadas aos tabuleiros de ludus latrunculi. Ele avalia que o objeto pode ser apenas um desenho feito por um pedreiro, e não uma relíquia de um jogo romano.
Crist sustenta que a singularidade da pedra não elimina seu interesse. Para o arqueólogo, ela pode representar uma tradição local que não foi registrada pelos historiadores romanos. A ausência de documentação, argumenta, não prova que o jogo nunca tenha existido, mas exige que a interpretação seja apresentada como uma possibilidade baseada nos vestígios disponíveis.


