UTRECHT — Um fragmento de pergaminho com cerca de 1.700 anos foi identificado como parte da Odisseia, epopeia atribuída ao poeta grego Homero. O material estava guardado havia décadas na Biblioteca da Universidade de Utrecht, na Holanda, dentro de uma coleção de manuscritos cristãos e textos egípcios antigos adquirida pela instituição em meados do século 20.
A identificação foi feita por Mark de Kreij, especialista em literatura grega antiga e professor da Universidade Radboud. Ao examinar o acervo, ele reconheceu palavras em grego que pertenciam à epopeia. O fragmento mede aproximadamente 6,6 por 7,7 centímetros e contém versos do Livro 12, que narra um dos episódios centrais da viagem de Odisseu.
A passagem sobre Hélio
O trecho trata da reação de Hélio, deus associado ao Sol na mitologia grega, depois que os companheiros de Odisseu matam e comem seu gado sagrado na ilha de Trinácia. Circe havia alertado Odisseu para que não chegasse ao local, mas a tripulação alcança a ilha após enfrentar Cila e Caríbdis.
Com os alimentos terminando e impedidos de deixar Trinácia por semanas devido às tempestades, os homens abatem os animais apesar da proibição. Hélio pede aos deuses que castiguem os responsáveis. Em resposta, Zeus destrói a embarcação durante uma tempestade. Os companheiros de Odisseu morrem, e o herói sobrevive.
Origem e preservação
A Universidade de Utrecht informou que o fragmento provavelmente fazia parte de um códice de pergaminho produzido no Egito entre os séculos 3º e 4º d.C. A peça pode ter vindo da região do oásis de Faiyum, conhecida pela preservação de documentos da Antiguidade.
Mark de Kreij levantou a hipótese de que o códice fosse uma edição compacta da Odisseia. O fragmento talvez tenha sido preservado por estar dentro do volume, protegido por outras folhas. A universidade afirma que existem cerca de 30 fragmentos semelhantes conhecidos atualmente.
Ainda não se sabe como o pergaminho chegou à coleção de Utrecht nem qual foi seu percurso antes de entrar no acervo. A identificação ocorreu inicialmente em 2024, como parte de um estudo mais amplo sobre textos provenientes do Egito greco-romano. Os resultados serão publicados no livro Hieratic, Demotic, Greek and Coptic Texts in the Utrecht University Collection, dedicado aos manuscritos da universidade.


