Uma antiga unidade da 7-Eleven no centro de Seattle, nos Estados Unidos, foi transformada em uma instalação de arte que questiona a busca por praticidade. Chamada “Inconvenience Store” (“Loja de Inconveniência”), a exposição reúne cerca de 70 artistas, em sua maioria locais, e apresenta objetos cotidianos em versões deliberadamente pouco funcionais.
A mostra ocupa o térreo de um prédio que funcionava como uma loja de conveniência, na esquina da Third Avenue com a Pine Street. O espaço preserva elementos como balcão de comidas, caixa registradora, geladeira e prateleiras organizadas por categorias. A mudança está no conteúdo: no lugar de produtos prontos para consumo imediato, há criações artesanais inspiradas em mercadorias comuns.
Os objetos estão à venda por valores que vão de US$ 1 a US$ 10 mil (cerca de R$ 5,12 a R$ 51,12 mil, na cotação atual). Os preços ficam visíveis para os visitantes, em uma tentativa de aproximar a experiência de uma compra cotidiana.
Objetos comuns, funções inesperadas
Entre os itens expostos estão cabos USB pré-enrolados, velas em formato de ovo, bolsas feitas com embalagens de salgadinhos e chaveiros que lembram doces e biscoitos. Uma das velas também funciona como régua, mas perde tamanho à medida que é queimada. Há ainda canecas produzidas com contas de plástico que têm furos.
A instalação inclui um “iPhone fixo” que, quando atendido, toca apenas “Vertigo”, da banda U2. Outra máquina permite trocar moedas por gravuras e adesivos. As peças foram distribuídas por 14 departamentos, entre eles alimentos e despensa, saúde e beleza e materiais de escritório.
As curadoras Lilia Deering e Mary Anne Carter pediram aos participantes que criassem interpretações abstratas de produtos normalmente encontrados em lojas de conveniência. As obras foram produzidas manualmente, em processos mais lentos e trabalhosos. “A arte é inerentemente inconveniente”, resumem as organizadoras.
A exposição também reúne os “cachorros-quentes de milho”, criados por Rosa Castanada a partir da comida quente tradicionalmente associada a esse tipo de estabelecimento. Ben Hubbard produziu objetos semelhantes a maços de cigarro, mas que funcionam como blocos de notas e canetas.
A artista têxtil Shiloh Davies fez grampos de cabelo gigantes, almofadas em formato de fatias de pão e chaveiros inspirados em Oreos e biscoitos Goldfish. Os chaveiros custam a partir de US$ 20 (R$ 102,31), enquanto os grampos de cabelo custam US$ 120 (R$ 613,86).
Arte em um espaço de compras
A exposição foi criada por Deering e Carter, que também assinam “STÖR”, de 2024, uma paródia de uma loja da IKEA, franquia sueca dedicada à venda de mobiliário e decoração.
A “Inconvenience Store” teve uma apresentação inicial durante o Downtown Art Walk, em agosto, e sua abertura oficial ocorreu em setembro. O planejamento prevê que a instalação permaneça em cartaz até meados de 2027.
As responsáveis afirmam que o formato pretende aproximar a compra de arte da rotina de quem está acostumado a fazer compras em uma loja. O visitante pode circular pelo espaço, conhecer os objetos e levar uma criação para casa, em vez de apenas observar obras em uma galeria.
A proposta também busca alcançar pessoas que normalmente não frequentam galerias. Para Deering, ambientes tradicionais podem dificultar a compreensão sobre preços e sobre como adquirir uma obra. A exposição, nesse sentido, usa a estrutura de uma loja para apresentar os trabalhos e torná-los disponíveis ao público.
O projeto ocupa o térreo do Parnassus, adquirido em abril pela organização sem fins lucrativos Base Camp Studios para receber artistas e estúdios. Nick Ferderer, fundador da organização, convidou Deering e Carter para desenvolver a instalação no local.
A iniciativa integra a ocupação de imóveis vazios no centro de Seattle por projetos culturais. Depois da conclusão das obras nos demais andares, a intenção é que o espaço se transforme em um local permanente para galerias. Para as criadoras, o projeto pode contribuir para que o centro da cidade seja também um destino, e não apenas uma área de passagem.


