O campo magnético da Terra pode ser estudado não apenas por mapas e medições, mas também por uma simulação sonora. Em 2024, a Agência Espacial Europeia (ESA) apresentou uma reprodução do que teria sido o enfraquecimento da proteção magnética do planeta durante um episódio ocorrido há mais de 41 mil anos.
A representação foi construída com informações da missão Swarm, composta por três satélites idênticos. Eles acompanham as variações e a estrutura do campo magnético terrestre. Com esses dados, os pesquisadores identificaram mudanças associadas ao período conhecido como excursão geomagnética e converteram os registros em uma sequência de sons.
De onde veio a simulação
O áudio reúne referências sonoras que podem lembrar o funcionamento de um avião antes da decolagem, o movimento de dobradiças, o desabamento de rochas e o deslocamento de madeira. Esses sons não foram captados no passado: são uma forma de traduzir as alterações registradas pelos satélites para uma experiência que possa ser percebida pela audição.
O campo magnético é produzido por fluxos de metal fundido no interior do planeta. Além de orientar bússolas, ele funciona como uma proteção contra a radiação solar. Por isso, o interesse dos pesquisadores não está apenas no som criado, mas também no que a reconstituição ajuda a representar sobre a dinâmica dessa estrutura.
Uma excursão geomagnética ocorre quando o campo perde intensidade e seus polos se deslocam. Durante esses episódios, a força magnética pode cair mais de 95%, enquanto os polos magnéticos mudam de posição ao redor da Terra. O evento ocorrido há mais de 41 mil anos foi o primeiro desse tipo a ser identificado pelos cientistas.
O Evento de Laschamp
A ocorrência recebeu o nome de Evento de Laschamp por causa de uma descoberta feita na década de 1960 em Laschamp, vila francesa situada na área vulcânica da cadeia de montanhas Chaîne des Puys. No local, os pesquisadores observaram que as bússolas deixavam de apontar para o norte como esperado.
Estudos anteriores associaram esse episódio a transformações ambientais em diferentes regiões. Uma hipótese relaciona o evento à mudança que levou a Austrália a ter o clima árido atual. Na América do Norte, grandes camadas de gelo se formaram, enquanto os neandertais desapareceram na Europa.
A possível explicação envolve a chegada de níveis maiores de radiação solar à superfície durante o enfraquecimento do campo magnético. Análises de núcleos de gelo e de sedimentos do fundo do oceano encontraram concentrações elevadas de assinaturas químicas relacionadas aos raios cósmicos no período.
Apesar do enfraquecimento registrado ao longo de milhares de anos, não há evidências de que uma queda drástica esteja próxima. Mesmo em um cenário semelhante ao do Evento de Laschamp, os efeitos sobre os seres humanos levariam milhares de anos para ser percebidos, conforme destacaram os pesquisadores.


