Um box lançado pelo selo Sesc apresenta Vadico em uma dimensão que ultrapassa sua conhecida parceria com Noel Rosa. O projeto, resultado de seis anos de pesquisa de Franco Galvão, reúne três CDs com 37 novas gravações, a participação de 170 músicos e um livreto bilíngue de 136 páginas.
Galvão recuperou 547 páginas de partituras inéditas, reuniu 47 fonogramas e catalogou 66 composições. O trabalho também inclui o site vadicogogliano.com, com a discografia completa do compositor, uma linha do tempo ligada às gravações históricas lançadas desde 1929 e uma relação de suas atividades como pianista e arranjador. Um minidocumentário de 18 minutos completa a coleção.
Um compositor além do samba
Os três discos foram organizados por áreas da trajetória de Vadico: o compositor e diretor musical de grupos maiores, o pianista de pequenas formações —entre elas grupos de choro e trios de jazz— e o autor de canções. Os dois primeiros volumes privilegiam a produção instrumental e incluem obras como “Prelúdio, Adágio e Fuga”, “Mambo”, “Saxologia”, “Dry Copacabana” e “Chopp”.
A gravação de “Fuga” tem formação de quarteto de cordas, com Luiz Amato, César Miranda, Emerson de Biagi e Adriana Holtz. “Prelúdio” e “Adágio” contam com a Ocam, Orquestra de Câmara da Escola de Comunicação e Artes da USP, sob direção de André Bachur. O repertório também reúne intérpretes como Hercules Gomes, Eduardo Lobo, Fernando Sagawa, Nailor Proveta e Cristóvão Bastos.
Vadico nasceu em 1910 em São Paulo, passou a infância e a adolescência no Brás e morreu em 1962 no Rio de Janeiro. Morou em Nova York e Los Angeles entre 1939 e 1953. Nesse período, integrou o Bando da Lua, de Carmen Miranda, participou de seis filmes com a cantora pela 20th Century Fox e esteve, de forma independente, em “Alô Amigos” e “Você Já Foi à Bahia”.
O compositor também foi diretor musical de Katherine Dunham entre 1949 e 1952 e estudou composição com Mario Castelnuovo-Tedesco. O acervo preservado pela Southern Illinois University Carbondale, ligado ao legado de Dunham, foi fundamental para a pesquisa.
A relação com Noel Rosa
Vadico e Noel Rosa foram apresentados em 1932 por Eduardo Souto, diretor artístico da gravadora Odeon. A parceria resultou em dez canções, entre elas “Feitio de Oração”, “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim”, “Cem Mil Réis”, “Provei”, “Quantos Beijos”, “Tarzan”, “Só Pode Ser Você”, “Pra que Mentir?” e “Mais um Samba Popular”.
A coleção não regrava nenhuma dessas parcerias. A decisão concentra a atenção em outras áreas da obra de Vadico, incluindo canções com letras próprias e trabalhos feitos com Jarbas de Albuquerque Melo, David Nasser, Aloysio de Oliveira, Herberto Sales, Marino Pinto e William Costa.
O terceiro disco traz três canções anteriores à temporada nos Estados Unidos e 11 compostas depois do retorno definitivo ao Brasil, em 1954. Entre elas estão “Deixei de Ser Otário”, “Minha Vida Melhorou”, “Saudade Intrusa”, “A Verdade Dói” e “Filho de Bacana”. A produção posterior inclui ainda “Só”, “Prece” e “Se Eu te Perdesse”.
Vadico trabalhou na gravadora Continental, na orquestra da Boate Casablanca e no programa de rádio e TV “Se a Lua Contasse”. Como diretor musical da TV Rio, produzia, gravava, compunha e tocava. A pesquisa de Galvão recupera esse percurso e amplia o olhar sobre um compositor associado, por muito tempo, principalmente aos sambas que escreveu com Noel Rosa.


