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Como o Brasil transformou James Joyce em uma tradição de tradução

Reedições e novas versões de Joyce mostram como tradutores brasileiros recriaram uma obra considerada intraduzível ao longo de um século.

Como o Brasil transformou James Joyce em uma tradição de tradução
Foto: Divulgação

A reedição da tradução de “Ulisses” feita por Antônio Houaiss recoloca em evidência uma tradição brasileira de recriação da obra de James Joyce. Publicada originalmente em 1966, a versão foi a primeira tradução integral do romance em língua portuguesa. A nova edição recupera o texto da segunda edição, de 1967, e acrescenta materiais de Houaiss e uma apresentação de Vitor Alevato do Amaral.

A dificuldade atribuída a Joyce está relacionada ao método de seus romances, marcado por variações formais e por uma linguagem radicalmente nova. “Ulisses”, publicado em 1922, ganhou fama de intraduzível. “Finnegans Wake”, de 1939, levou essa fama ao limite e passou a ser visto como ilegível. Ainda assim, o Brasil já publicou três traduções integrais de “Ulisses” e duas de “Finnegans Wake”. Há também outras duas traduções completas de cada romance em fase de revisão.

Somadas às versões de “Dublinenses” e de “Um Retrato do Artista Quando Jovem”, são 18 traduções integrais da principal obra de ficção de Joyce. A Biblioteca Nacional registra ainda mais 20 traduções de trabalhos menores e fragmentos. Cartas do escritor também vêm recebendo edição no país.

Uma história que começou há um século

Os primeiros registros da recepção brasileira de Joyce remontam a 1924. Em junho daquele ano, Mário de Andrade citou um trecho de “Ulisses” no artigo “Da Fadiga Intelectual”, publicado na Revista do Brasil. Em dezembro, Gilberto Freyre escreveu sobre o romance no Diário de Pernambuco, chamando Joyce de criador de um novo ritmo para o romance.

A primeira tradução completa de uma obra do escritor no Brasil foi “Retrato do Artista Quando Jovem”, em versão de José Geraldo Vieira, publicada em 1945 pela Livraria do Globo, de Porto Alegre. O primeiro fragmento conhecido de “Ulisses” em português brasileiro apareceu em setembro de 1946, traduzido por Erasmo Pilotto na revista Joaquim, de Curitiba. Em 1947, o Diário de S.Paulo publicou uma versão de Pagu, frequentemente tratada como a tradução inaugural do romance no país.

A diferença entre esses marcos se explica pelo desconhecimento da versão curitibana, de acordo com Vitor Alevato do Amaral, professor da Universidade Federal Fluminense e líder do grupo Estudos Joycianos no Brasil. A circulação maior do jornal paulista contribuiu para que a tradução de Pagu se tornasse a mais lembrada.

A tradição ganhou impulso em 1962, com a publicação, por Haroldo e Augusto de Campos, de estudos e fragmentos de “Finnegans Wake” em “Panaroma do Finnegans Wake”. Donaldo Schüler, primeiro brasileiro a traduzir integralmente o romance, lançou “Finnicius Revém” entre 1999 e 2003. Ele afirma que acompanhou o movimento concretista e prefere definir sua relação com os irmãos Campos como sintonia, não como influência.

Tradução como invenção

Para Dirce Waltrick do Amarante, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e coordenadora do Coletivo Finnegans, a tradução de Joyce permanece aberta porque nenhuma língua de chegada consegue reproduzir toda a inventividade do escritor. Aurora Bernardini, professora aposentada da Universidade de São Paulo e integrante do coletivo, associa a dificuldade aos muitos sentidos possíveis da obra.

O Coletivo Finnegans recebeu o Prêmio Jabuti de tradução em 2023 por “Finnegans Rivolta”, a segunda tradução integral do romance no Brasil. A experiência se insere numa concepção de tradução que não se limita à fidelidade técnica, mas trata o texto traduzido como criação literária.

Essa perspectiva também aparece nas diferentes versões de “Ulisses”. Houaiss publicou sua tradução pela Civilização Brasileira em 1966, depois de realizar o trabalho em menos de um ano. A segunda edição, de 1967, incorporou sugestões de Augusto de Campos, que também assinou a orelha do livro. A reedição atual mantém essa orelha, as 26 notas de rodapé e o texto de capa original, além de incluir um ensaio de Houaiss, de 1972, e uma apresentação de Amaral.

Caetano Galindo levou dez anos para concluir sua tradução, publicada em 2012 pela Penguin-Companhia. É a única versão brasileira que conserva o “Y” de “Ulysses”, como no original. Bernardina da Silveira Pinheiro publicou sua tradução em 2005, pela Objetiva, com uma proposta mais coloquial. A versão foi reeditada pela Nova Fronteira em 2022 e inclui notas de leitura.

Amaral também publicou uma nova tradução de “Um Retrato do Artista Quando Jovem”, pela Antofágica, em edição ilustrada. Para ele, Galindo, Dirce Waltrick do Amarante, Bernardina Pinheiro e Donaldo Schüler ajudaram a apresentar Joyce como um autor político, engajado, irreverente e engraçado, sem abandonar a invenção linguística.

Joyce e a literatura brasileira

Os pesquisadores relacionam a permanência de Joyce no Brasil à abertura para diferentes línguas e à convivência entre a vanguarda e a cultura popular. Caetano Galindo associa “Ulisses” ao gosto pela diversão com as palavras. Ele descreve o romance como cômico e carnavalizado, com inversão de regras e troca de papéis.

A dimensão política também participa dessas leituras. A obra de Joyce desafia o poder colonial britânico e aborda questões de gênero e sexualidade. Em “Ulisses”, o judeu Leopold Bloom, excluído da sociedade de Dublin, é transformado em uma figura equivalente a um novo Odisseu.

A tradução de Houaiss ganhou um significado específico nesse contexto. Depois de ter os direitos políticos suspensos pelo primeiro Ato Institucional da ditadura militar, em abril de 1964, ele foi convidado pelo editor Ênio Silveira a trabalhar na tradução e na revisão do romance. Para Amaral, a condição política de Houaiss dialogava com a trajetória de Bloom, entendido pelo tradutor como um herói comum.

A produção de novas versões continua. Há uma tradução de “Finnegans Wake” em desenvolvimento por Caetano Galindo e Afonso Teixeira Filho, além de trabalhos de Sérgio Medeiros, Luís Henrique Garcia Ferreira e do Coletivo Finnegans. “Ulisses” também recebe uma versão coletiva, com 18 autores-tradutores, um para cada capítulo, coordenada por Henrique Xavier. Anunciado em 2022 pela Ateliê Editorial, o projeto deve ser publicado em dezembro deste ano.

A Iluminuras anunciou ainda uma nova tradução de “Dublinenses”, feita pelo Coletivo Dublinense. Para Xavier, a sucessão de versões registra diferentes gerações, localidades e interpretações. No caso brasileiro, Joyce deixou de ser apenas um autor difícil: tornou-se uma obra continuamente recriada pela própria literatura.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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