Gustavo Scarpa, meio-campista do Atlético-MG, encontrou na leitura uma forma de desacelerar em meio à rotina de conteúdos rápidos, vídeos curtos e telas que disputam a atenção. O hábito, que começou de maneira mais consistente em 2019, também deu origem a um clube de leitura criado por torcedores e alcançou pessoas que passaram a escolher novos livros a partir de suas recomendações.
Antes disso, Scarpa havia lido somente a biografia de Steve Jobs, ainda na sétima série. A mudança veio por incentivo de Pedro Jatene, então estagiário do Palmeiras. A proposta era que o jogador recebesse livros conforme marcasse gols e desse assistências. Antes mesmo do início da aposta, ele ganhou “O Médico e o Monstro”. Depois, conheceu obras de Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e livros cristãos.
As indicações feitas pelo jogador levaram torcedores a criar a Galeitura. O clube reúne quase 100 mil seguidores nas redes sociais e recebeu, nesta quinta-feira (24), uma camisa oficial lançada pelo Atlético-MG. Scarpa disse que não esperava que uma recomendação literária alcançasse essa dimensão nem que a torcida se mobilizasse para criar um clube do livro.
Leitura como pausa e retomada
A estudante Daphine Drumond, de 18 anos, moradora da Região Metropolitana de Belo Horizonte, já lia por influência da mãe. A Galeitura, porém, ampliou seu interesse por gêneros diferentes. Ela lê “Pessoas Normais”, de Sally Rooney, e identifica nos personagens possibilidades para compreender situações da própria vida.
O tempo disponível é um dos obstáculos para quem tenta manter o hábito. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em 2024, registrou a redução do número de leitores no país: de cerca de 100 milhões em 2019 para 93 milhões. A média anual de livros lidos caiu de 4,95 para 3,96. Entre os entrevistados, 75% afirmaram que gostariam de ter lido mais, e a falta de tempo foi o principal motivo apresentado.
Aos 67 anos, o aposentado Francisco Alves e Silva tenta recuperar uma prática que perdeu espaço para a internet desde a pandemia. Ele voltou aos livros principalmente à noite e escolheu reler “Tomara que você seja deportado”, de Jamil Chade. Para Francisco, a leitura ajuda a organizar os pensamentos e a refletir sobre o momento político. Ele não rejeita a tecnologia, mas critica o consumo excessivo e pouco crítico de conteúdos.
A instrutora de academia Jennifer Horrana, de 33 anos, aproveita o intervalo do almoço ou momentos de menor movimento no trabalho para ler. Ela acompanha Augusto Cury e atualmente lê “A fascinante construção do eu”. Mesmo com alternativas digitais, prefere manter o livro físico nas mãos.
Livros que atravessam gerações
No Sul de Minas, Inez Maciel, de 75 anos, lê depois do almoço, quando consegue descansar do trabalho na fazenda. Moradora de uma região tranquila de Baependi, ela relê “Eu sou Malala”, de Malala Yousafzai, e guarda carinho especial pela autobiografia de Agatha Christie.
Inez prefere o livro impresso ao celular, à internet e ao tablet. A relação com as obras começou antes mesmo do nascimento dos filhos: ela lia histórias durante a gravidez e, depois, apresentou às crianças contos como “Branca de Neve”, “Bambi” e “Lobo e os Sete Cabritinhos”. As narrativas chegaram às festas, às encenações domésticas e às brincadeiras. Os filhos cresceram, tiveram seus próprios filhos, e os netos também passaram a ler.
A leitora se tornou autora quando percebeu que não havia material didático adequado para a disciplina “Educação para o lar”, que lecionava. Depois de uma colega recusar o convite para o projeto, escreveu sozinha o livro didático com esse título. A obra se espalhou pelo Brasil, e Inez viajava a Belo Horizonte duas vezes por ano para receber os direitos autorais.
Para ela, a leitura transforma quem lê. Scarpa também associa os livros à felicidade e acredita que esse estado pode ajudá-lo no futebol. Em diferentes momentos do dia — à noite, no almoço, depois do trabalho ou entre compromissos — o livro aparece como uma maneira de recuperar a concentração, ampliar pensamentos ou compartilhar histórias dentro da família.


