BRASÍLIA — O Distrito Federal ampliou o atendimento das redes de água e esgoto, mas ainda mantém uma parcela da população sem acesso integral ao saneamento básico. No relatório de 2025 da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), 99% dos moradores aparecem ligados à rede geral de abastecimento de água, enquanto 95,95% são atendidos pela rede geral de esgotamento sanitário. Isso significa que 1% da população não tem acesso à água tratada em sua moradia e que aproximadamente 114 mil habitantes continuam sem esgotamento sanitário.
O saneamento básico é definido pelo marco legal de 2020, que atualizou a legislação de 2000 e criou a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O conjunto inclui abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, além de drenagem e manejo das águas pluviais urbanas. A legislação também determina que o prestador do serviço em rede leve a infraestrutura até os pontos de conexão das edificações.
Água, esgoto e tratamento
No Distrito Federal, a Caesb divide algumas atribuições com a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e com a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa). Antes dos dados mais recentes, o Censo IBGE 2022 registrava uma população de 2.817.381 habitantes. Conforme o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), aproximadamente 98,98% dos moradores tinham acesso ao abastecimento de água e 92,30% ao esgotamento sanitário.
A expansão registrada pela Caesb representa melhora em relação ao Censo IBGE de 2010, mas a cobertura ainda não alcança toda a população. O relatório informa que 100% do volume de esgoto coletado é tratado. No entanto, 14% desse tratamento é secundário, modalidade em que a água resultante ainda pode oferecer risco ao meio ambiente por causa da possibilidade de eutrofização. Esse processo pode estimular a proliferação de algas, reduzir o oxigênio da água e provocar a morte de peixes.
Os outros 86% correspondem ao tratamento terciário, que remove poluentes específicos e micronutrientes, como fósforo e nitrogênio, associados à eutrofização.
A falta de saneamento atinge sobretudo pessoas em situação de vulnerabilidade social, econômica e física ou ambiental. Em áreas sujeitas a chuvas torrenciais, a ausência de redes de água e esgoto se soma aos riscos de enxurradas e alagamentos. O Sol Nascente, na Ceilândia, é citado como uma dessas áreas durante o período de chuvas.
Esgoto a céu aberto e fossas sépticas podem contaminar o solo, o subsolo e a água. Fontes não canalizadas, como poços e rios, quando contaminadas, podem estar associadas a infecções, leptospirose, parasitoses e verminoses. A precariedade também pode gerar doenças respiratórias. O acesso ao saneamento, portanto, envolve água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana e drenagem.
A Caesb informou a expansão de sistemas de abastecimento e de captação de água principalmente em Regiões Administrativas de classe média e alta, como Sobradinho I e II, Grande Colorado, Fercal, Planaltina, Gama e Lago Sul. Também comunicou o início da implantação de redes de distribuição em regiões da Ceilândia, com conclusão prevista para novembro de 2026. Até o momento, porém, não havia registros dessas obras no site da companhia, o que deixa em aberto a situação da implantação nas áreas mais vulneráveis da cidade.
Coleta de resíduos e desigualdade territorial
A limpeza urbana e o manejo de resíduos sólidos também fazem parte do saneamento básico. O serviço inclui coleta, transporte, tratamento, recuperação de materiais e destinação ambientalmente adequada dos rejeitos. No Distrito Federal, a atividade é realizada pelo Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU).
Pelos mapas do GeoPortal do SLU, é possível identificar diferenças na frequência da coleta convencional. Em áreas movimentadas, com comércio, indústrias e estabelecimentos públicos, o serviço porta a porta ocorre durante 6 dias na semana, como nas superquadras do Plano Piloto e na Ceilândia. Em regiões periféricas, a coleta ocorre durante 3 dias na semana. Onde os caminhões não conseguem entrar, são disponibilizados papa-lixos, contêineres semienterrados para a destinação dos resíduos.
A cobertura não chega a 100% do Distrito Federal, principalmente em áreas de maior vulnerabilidade. A falta de pavimentação e a presença de solo exposto impedem o atendimento pela varrição manual. Esses locais também não contam necessariamente com papeleiras, presentes em áreas pavimentadas.
Drenagem e impactos das chuvas
A drenagem urbana e o manejo das águas pluviais ficam principalmente sob responsabilidade da Novacap e da Adasa. A Novacap projeta, implanta, opera e mantém a infraestrutura pública de drenagem. A Adasa regula e fiscaliza o sistema e também acompanha órgãos como Caesb e SLU, além de atuar na fiscalização dos recursos hídricos e na cobrança de taxas relacionadas ao saneamento.
Os efeitos da drenagem insuficiente aparecem com maior intensidade no fim da primavera e no verão, sobretudo em áreas periféricas sem infraestrutura urbana adequada, como o Sol Nascente, na Ceilândia, e a Colônia Agrícola 26 de setembro. A falta de sistemas de drenagem, de áreas permeáveis e de pavimentação adequada favorece alagamentos e enxurradas. Ruas de terra podem agravar os impactos das chuvas, enquanto a vegetação contribui para reduzir a velocidade da água na superfície e ampliar a infiltração no solo.
A situação mostra que a expansão das redes não elimina as desigualdades no acesso ao saneamento. Nas áreas mais vulneráveis, a falta de água tratada, esgoto, coleta de resíduos e drenagem mantém a população exposta a danos ambientais e riscos à saúde. O saneamento é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um direito humano básico.


