BELO HORIZONTE — O crescimento do crédito e a demora dos efeitos do aperto monetário ajudaram a prolongar a alta da inadimplência, segundo Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter. A avaliação é que o indicador ainda pode piorar no terceiro trimestre, mas deve começar a recuar perto do fim do ano.
O cenário traçado pela executiva considera que os estímulos fiscais e creditícios deram mais fôlego às famílias e sustentaram a expansão do crédito além do esperado. Com isso, a política monetária demorou mais para produzir efeitos sobre a capacidade de pagamento.
“Nosso cenário-base é uma inadimplência que está fazendo pico agora e deve ter uma queda lenta”, disse Vitória. Para ela, a melhora tende a ocorrer gradualmente porque há uma defasagem entre as decisões sobre juros e seus efeitos sobre as famílias.
Efeito limitado das renegociações
A discussão sobre a inadimplência ganhou espaço na corrida eleitoral depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou a possibilidade de um novo pacote de renegociação das dívidas caso seja reeleito. O tema ocorre em um momento de endividamento recorde: a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontou 82% em julho e agosto.
Vitória afirmou que os programas Desenrola tiveram impacto limitado sobre a inadimplência e sobre a qualidade do crédito das famílias. Na avaliação da economista, novas medidas podem não produzir o alívio esperado pelo governo, dependendo de como forem estruturadas e executadas.
A análise é compartilhada pela direção do Inter. Segundo o CEO Alexandre Riccio, o Desenrola não provocou mudanças estruturais relevantes na carteira de crédito da instituição. “Do ponto de vista estrutural, no longo prazo, não mudam tanto o que a gente vê em carteira de crédito”, disse.
Juros e riscos para o cenário
O Inter espera mais dois cortes de 0,25 ponto percentual até o final do ano, levando a Selic a 13,25% ao ano. Vitória afirmou que há sinais de melhora na inadimplência, mas ponderou que a velocidade da queda dos juros e a defasagem da política monetária podem tornar o processo lento.
A trajetória pode ser interrompida se a inflação permanecer elevada por mais tempo. Entre as possibilidades citadas está uma alta do dólar após um anúncio fiscal que decepcione no próximo ano, cenário que poderia levar o Banco Central a elevar novamente os juros.
A alta recente do petróleo, com o barril próximo a US$ 100, também foi apontada como fator de risco. Ainda assim, a interrupção da queda dos juros não é o cenário-base do Inter.


