RECIFE — A Praça da Convenção, no bairro de Beberibe, Zona Norte do Recife, recebe nesta quarta-feira (23), às 19 horas, a primeira corrida de rua promovida pelos coletivos Redes do Beberibe e Sargento Perifa. Com inscrições encerradas, a atividade pretende discutir concentração de renda, desigualdades entre territórios e participação política a partir da experiência de circular pela cidade.
A iniciativa tem apoio da Desenrola e Não Me Enrola e da Oxfam Brasil. O ponto de partida são as diferenças percebidas na bacia do Rio Beberibe, onde comunidades como Linha do Tiro e Alto Santa Terezinha ficam próximas de bairros com condições diferentes de renda, transporte, moradia, segurança e acesso a áreas verdes.
Durante o trajeto, a organização vai colocar em evidência fatores que interferem no deslocamento cotidiano, como iluminação, mobilidade, segurança, paisagem urbana e uso dos espaços públicos. Para Letícia Barbosa, uma das organizadoras, a corrida também é uma forma de mobilização e ocupação da rua. “Correr pela cidade também é observar quem consegue circular por ela”, afirma.
A programação começa com uma fala de abertura na praça, seguida da distribuição de materiais informativos. Ao levar a discussão para o percurso, os coletivos querem estimular o debate sobre quem tem acesso à cidade e sobre a participação dos moradores nas decisões que afetam seus territórios.
O debate se apoia ainda em dados sobre riqueza e poder. O relatório “Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, publicado pela Oxfam Brasil em 2026, registra que os 10% mais ricos concentram mais da metade da riqueza declarada no Brasil. O documento também aponta que o 1% mais rico detém 37% da riqueza do país.
Entre os mecanismos associados à influência econômica sobre a vida pública, o estudo cita financiamento de campanhas, lobby, acesso privilegiado a autoridades e concentração dos meios de comunicação. O relatório estima que, mantidas as condições atuais, as mulheres só alcançarão igualdade de renda com os homens em 2047. Para a população negra, a projeção é de 63 anos até atingir a renda média da população branca.
No Beberibe, o Censo das Barreiras, realizado pela Redes do Beberibe em 2026, indica que mulheres respondem por 58% das residências localizadas em áreas classificadas como de alto ou muito alto risco de deslizamento. O levantamento também mostra que mais de 82% dos responsáveis por moradias em situação de maior vulnerabilidade socioambiental são pretos ou pardos.


