A França enfrenta uma combinação de dívida pública elevada, déficit acima do limite europeu, juros em alta e falta de maioria governista no Parlamento. O quadro aumentou a preocupação de investidores com a possibilidade de um efeito de contágio sobre a zona do euro, embora analistas avaliem que a dívida francesa ainda não represente um risco sistêmico.
A dívida pública alcançou 117,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a cerca de 3,5 trilhões de euros (20,6 trilhões de reais), no fim de março. Para 2026, o governo estima déficit público de 5,4% do PIB, quase o dobro do limite previsto pelas regras europeias. A previsão de crescimento para o mesmo ano é de 0,5%.
Os títulos soberanos franceses de 10 anos chegaram a oferecer rendimento de 4,50% em meados de setembro, o maior nível desde 2008. A taxa ficou acima da registrada por Itália, Espanha e Grécia e elevou a estimativa para o custo da dívida pública a 65 bilhões de euros (382,7 bilhões de reais) em 2026 — valor superior aos gastos com Educação ou Defesa, sem incluir as aposentadorias.
Distância em relação à Alemanha
Nesta sexta-feira (18), a diferença entre os juros dos títulos franceses e alemães de 10 anos subiu para 100 pontos-base. As taxas eram de 4,5% na França e 3,5% na Alemanha. Para Maxime Darmet, economista da Allianz Trade, o aumento mostra uma preocupação crescente dos investidores. Ele afirmou que a França deixou de ocupar uma posição central na zona do euro e se tornou um país quase periférico.
Kevin Thozet, da gestora de ativos Carmignac, disse que a França é a mais exposta por reunir dívida pública e déficit entre os mais altos da zona do euro, além de um Parlamento fragmentado. O governo não tem maioria, e os dois primeiros-ministros anteriores a Sébastien Lecornu foram derrubados pelo Parlamento após apresentarem ajustes fiscais menores.
Os investidores internacionais detêm cerca de 56% da dívida francesa. Thozet avaliou que eles começam a perceber a deterioração do quadro, sobretudo diante de propostas como a de Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França Insubmissa, de anular parte da dívida.
Possível efeito sobre o bloco
O risco de uma dinâmica de endividamento crescente aparece quando o custo médio da dívida aumenta mais rapidamente do que a economia, incluindo a inflação. Darmet considera que o risco de contágio se tornaria maior se a diferença em relação aos títulos alemães chegasse a 120 ou 130 pontos-base, em caso de nova piora das contas públicas, enfraquecimento da economia, impasse político ou medidas econômicas consideradas pouco confiáveis.
A zona do euro, porém, é avaliada como mais sólida do que durante a crise das dívidas soberanas da década de 2010. Portugal teria saneado suas contas, enquanto a Itália se tornou mais resiliente, apesar de continuar frágil. David Zahn, da gestora Franklin Templeton, afirmou que a dívida francesa continua procurada pelos investidores e, por enquanto, não constitui um risco sistêmico. Também existe a expectativa de que o Banco Central Europeu intervenha se os diferenciais dispararem.
Na quinta-feira (17), Lecornu indicou um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (317,9 bilhões de reais) no projeto de orçamento para 2027. A aprovação da proposta, contudo, deverá ser arriscada para um governo sem maioria no Parlamento.



