A notícia e o que está por trás
Política

Fundo no Texas entra na investigação sobre repasses de Vorcaro a Flávio Bolsonaro

A PF apura se parte dos recursos destinados ao filme Dark Horse custeou Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Havengate: o fundo na mira da PF que conecta Vorcaro, Flávio e Eduardo Bolsonaro

A Polícia Federal investiga o fundo offshore Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, em uma apuração sobre recursos repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao senador Flávio Bolsonaro. A suspeita é que parte do dinheiro, destinado oficialmente à produção do filme Dark Horse, tenha sido usada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Entre fevereiro e maio de 2025, Vorcaro transferiu US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) a Flávio em seis operações. Documentos indicam que pelo menos US$ 2 milhões foram encaminhados pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate. A empresa atuava em parceria com negócios ligados a Vorcaro e é liderada por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro.

Flávio negou que os recursos tenham sido destinados ao irmão. Ele afirmou que o dinheiro foi integralmente aplicado na produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro e disse que Eduardo se mantém com uma doação feita pelo pai e com reservas próprias. Eduardo também negou ter recebido valores de Vorcaro, mas declarou ter investido R$ 350 mil no início da produção e ter sido reembolsado depois da entrada de investidores.

A relação com o filme

Um contrato de produção datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024 apresenta a GoUp Entertainment como produtora e coloca Eduardo e o deputado federal Mario Frias à frente da produção-executiva de Dark Horse. Eduardo afirmou que, naquele momento, atuava como diretor executivo, mas que deixou essa função quando o projeto passou a adotar a estrutura de fundo de investimento.

A defesa de Mario Frias declarou que Eduardo não é nem foi produtor-executivo do filme e que nunca recebeu dinheiro do fundo. A divergência sobre o papel de Eduardo na produção é um dos pontos considerados na investigação sobre a destinação dos recursos.

Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Na última segunda-feira (11/5), a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do ex-deputado por coação no curso de processo. A acusação está relacionada à articulação, a partir dos Estados Unidos, de sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras, com o objetivo de influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.

Em 2025, Jair Bolsonaro enviou R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos. Na ocasião, o Supremo Tribunal Federal considerou o envio um indício da articulação entre os dois para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.

Como o Havengate aparece nas transferências

O Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo nos Estados Unidos. O fundo pertence formalmente à Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial, em Dallas, no Texas, onde funciona o escritório de Calixto.

A empresa que administra o fundo tem Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana em seu quadro societário. Santana afirma ter sido sócio-administrador da Calixsan Capital Management e atuar como agente imobiliário na Sanmo Realty. Também declara ter trabalhado no Banco Espírito Santo e no Banco do Brasil, ambos em Miami.

Calixto é advogado especializado em imigração, com atuação voltada principalmente ao visto EB-5. Formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, ele tem mestrado pela SMU Dedman School of Law, em Dallas, e vive nos Estados Unidos há mais de 20 anos. Eduardo o descreve como um profissional com experiência em gestão patrimonial e fundos de investimento.

Flávio afirmou que a participação de Calixto na estrutura é compatível com o fato de ele ter cuidado do processo migratório de Eduardo. A presença do advogado no fundo, porém, é um dos elementos que levaram a PF a examinar a rota dos recursos.

O papel da estrutura offshore

A remessa teria passado pela Entre Investimentos depois que surgiram dificuldades operacionais para realizar a transferência internacional pelo Banco Master. Em fevereiro de 2025, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pela PF como principal operador financeiro do banqueiro, relatou recusas do setor de câmbio do banco. Vorcaro teria orientado que o pagamento fosse feito por meio da Entre.

O Banco Central decretou em março de 2025 a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, integrantes do Conglomerado Entrepay, controlado pela Entre Investimentos. As autoridades passaram a investigar se Vorcaro seria um dono oculto da empresa, hipótese negada pela Entre, que rejeita qualquer vínculo societário, de controle ou de governança com o banqueiro.

Fundos offshore são veículos de investimento localizados fora do país de residência do investidor. Como podem ser registrados em nome de administradores e organizados em estruturas sucessivas, com fundos que controlam outros fundos, a identificação do beneficiário final pode ser difícil.

O auditor fiscal Roberto Alvarez, do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, compara esse tipo de estrutura a um CNPJ de papel. Segundo ele, enquanto empresas formalmente constituídas precisam informar seus beneficiários finais, fundos em algumas jurisdições podem ocultar quem são os cotistas.

A dificuldade aumenta porque os Estados Unidos não aderiram ao Common Reporting Standard, padrão criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico em 2014 para o compartilhamento internacional de informações tributárias e financeiras. O Brasil aderiu formalmente ao modelo em 2016. Já o Foreign Account Tax Compliance Act, dos Estados Unidos, entrou em vigor em 2010 e obriga instituições estrangeiras a informar dados de cidadãos americanos às autoridades fiscais do país, sem estabelecer uma obrigação recíproca automática para investimentos de estrangeiros nos Estados Unidos.

Por isso, para obter informações sobre fundos como o Havengate, a PF depende de atos de cooperação com o FBI ou com instituições americanas. O auditor fiscal Marcelo Lettieri afirma que a ausência de troca automática de dados dificulta o acesso às informações. Alvarez também questiona a origem dos recursos e afirma que a operação precisa ser examinada quanto a eventuais tributos incidentes.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.