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Política

Neutralidade política transforma escolhas de governo em decisões aparentemente técnicas

O discurso de estar acima da polarização não elimina disputas sobre recursos, direitos, prioridades e relações de poder.

Neutralidade política transforma escolhas de governo em decisões aparentemente técnicas

A apresentação de lideranças políticas como “nem de esquerda, nem de direita” ganhou espaço no Brasil associada a ideias como gestão, eficiência, diálogo, equilíbrio e pragmatismo. O discurso promete afastar o governo das disputas ideológicas, mas as decisões do Estado continuam produzindo efeitos sobre recursos, direitos, prioridades e participação nos espaços de poder.

A gestão também envolve escolhas políticas

Definir onde investir, quais políticas públicas priorizar, quem será protegido e quais grupos participarão das decisões depende de uma visão sobre desigualdades e sobre o papel do governo. Por isso, a identidade política declarada por uma liderança não basta para compreender seu projeto. Também é necessário observar quais interesses suas escolhas fortalecem, que alianças sustentam sua administração e que sociedade vai sendo construída por essas decisões.

Em Pernambuco, essa discussão aparece na trajetória política de Raquel Lyra (PSD). A governadora procura associar sua imagem à isenção por meio do que chama de “pernambuquismo”, deslocando o debate das identidades políticas nacionais. Sua atuação, porém, está ligada a uma família com longa presença na política brasileira. O ponto central, portanto, não é apenas classificá-la em um campo ideológico, mas examinar como a valorização da eficiência administrativa pode sugerir que um governo esteja acima dos conflitos que fazem parte do ato de governar.

A mesma linguagem aparece em outras experiências, ainda que com posições e alianças diferentes. No Maranhão, Eduardo Braide (PSD) tenta afastar sua imagem da polarização nacional e concentra o discurso na gestão e nos problemas do estado. Em Minas Gerais, Jarbas Soares Júnior (PSB) afirmou não ser de esquerda, de direita ou de centro, contrapondo os chamados “núcleos ideológicos” à administração pública. Tarcísio de Freitas (Republicanos), em outro campo político, também separa técnica e ideologia para defender determinadas escolhas de governo.

Esses casos não formam necessariamente um mesmo projeto. O elemento comum está no deslocamento de decisões políticas para um terreno apresentado como neutro: o da gestão. A técnica é necessária às políticas públicas, que dependem de planejamento, evidências, orçamento, capacidade administrativa e avaliação. Ela, contudo, não define sozinha quais problemas devem ser enfrentados primeiro nem para quem os recursos devem ser destinados.

O que a neutralidade pode ocultar

Desigualdade, racismo, violência contra as mulheres, concentração de renda, acesso à terra, segurança pública, privatização e distribuição do orçamento envolvem disputas por direitos, recursos e poder. A técnica pode orientar uma decisão, mas não elimina a escolha sobre qual sociedade se pretende construir.

É nesse ponto que a formulação de Sueli Carneiro — “Entre a esquerda e a direita, continuo negra” — se diferencia do discurso de não pertencer a nenhum campo. A frase não trata as disputas políticas como irrelevantes nem reivindica neutralidade. Ela chama atenção para relações de poder que permanecem mesmo quando mudam os governos, os partidos ou os nomes atribuídos aos diferentes campos.

O movimento negro brasileiro também evidenciou essa questão dentro dos próprios campos progressistas. Durante muito tempo, o racismo foi tratado como uma contradição secundária, sob a suposição de que as desigualdades raciais seriam superadas pelo enfrentamento das desigualdades econômicas. Ao colocar a experiência negra no centro da reflexão política, Sueli Carneiro aponta os limites de projetos de transformação que não fazem do combate ao racismo uma dimensão estruturante da democracia.

Essa perspectiva permite construir alianças sem abandonar princípios, dialogar com campos diferentes sem apagar conflitos e pressionar parceiros políticos quando seus projetos não enfrentam desigualdades produzidas pelo racismo, pelo patriarcado e pelas relações de classe. Autonomia, nesse sentido, não significa ausência de posição, mas capacidade de estabelecer relações políticas sem ocultar os conflitos existentes.

A neutralidade reivindicada como posição pode produzir efeito distinto. Ao apresentar decisões como se estivessem acima das disputas sociais, transforma escolhas políticas em questões aparentemente administrativas e torna menos visíveis as relações de poder que as atravessam. A falsa equivalência surge quando essa postura é colocada no mesmo plano da recusa de um alinhamento automático feita por quem busca ampliar a disputa política e incluir dimensões historicamente secundarizadas.

A democracia brasileira se formou em uma sociedade marcada por desigualdades de raça, gênero, classe e território. Alguns grupos tiveram mais condições de definir o que seria reconhecido como interesse público, quais demandas seriam consideradas legítimas e quem poderia ocupar espaços de decisão. Por isso, analisar a democracia exige olhar não só para as instituições e seus ocupantes formais, mas também para as relações de poder que as atravessam.

Mais importante do que a identidade política reivindicada por uma liderança é perguntar quem participa das decisões, quem acessa os recursos públicos, quais territórios recebem investimentos, quais vidas são protegidas e quais desigualdades um projeto está disposto a enfrentar. Não declarar uma filiação ideológica não elimina esses conflitos. Em certos casos, apenas faz com que eles permaneçam menos visíveis.

Democracia não é ausência de conflito. Ela depende da possibilidade de tornar visíveis as disputas que estruturam a sociedade e de discutir publicamente os caminhos para enfrentá-las. Quando alguém afirma não estar de nenhum lado, a pergunta central passa a ser quais relações de poder deixam de ser nomeadas.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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