SÃO PAULO — A aliança entre o governador Tarcísio de Freitas e o então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite, ajudou a destravar a privatização da Sabesp e esteve ligada às negociações para a eleição municipal de 2024. A aproximação foi celebrada em um evento realizado na zona sul da capital, em 17 de janeiro de 2024.
Na ocasião, a entrega da primeira etapa de uma usina fotovoltaica flutuante acabou marcada pelos elogios de Tarcísio ao vereador. O governador reagiu às manifestações de apoiadores que chamavam Leite de “lindo” e afirmou: “Que o Milton é querido, tudo bem, a gente já sabia. Agora, lindão?”.
A relação entre os dois políticos ganhou novo significado após a Operação Vectura Corrupta, que atingiu Leite e Danilo Morgado (PL) em uma investigação sobre suspeitas de infiltração do Primeiro Comando da Capital no poder público e no transporte coletivo. Leite teve a prisão decretada e era considerado foragido pela polícia; Morgado foi preso.
A operação buscava cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em municípios paulistas. A investigação foi conduzida pela Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com a participação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado e do Ministério Público de São Paulo.
A negociação pela Sabesp
A proposta de privatização da companhia de saneamento, uma das principais bandeiras da campanha de Tarcísio em 2022, dependia da Câmara Municipal porque havia uma cláusula no contrato da empresa com o município. Leite, responsável por organizar a pauta do Legislativo, mantinha o projeto parado desde setembro de 2023.
O vereador também buscava recuperar espaço político no Palácio dos Bandeirantes e influenciar a escolha do vice na chapa de Ricardo Nunes, que tentaria a reeleição. Em outubro de 2023, ele havia criticado a venda da Emae e da Sabesp, dizendo que não abriria mão dos direitos da cidade de São Paulo.
Leite usou ainda a pré-candidatura de Kim Kataguiri à Prefeitura para pressionar Nunes. O deputado federal era filiado ao União Brasil, partido liderado pelo vereador na capital, e a legenda tinha sete representantes na Câmara, número considerado necessário para formar maioria.
O acordo incluiu o apoio de Nunes à escolha de Ricardo Teixeira para presidir a Câmara. Com isso, o comando do Legislativo permaneceu com o partido de Leite. Tarcísio, por sua vez, garantiu o retorno da influência do aliado no governo paulista. A saída de Gilberto Kassab da Casa Civil e a indicação de Arthur Lima, do União Brasil, consolidaram esse movimento.
Depois das negociações, a tramitação do projeto avançou na Câmara, e a cláusula que impedia a venda da Sabesp para a iniciativa privada foi derrubada. A proximidade entre os grupos políticos continuou pública: há 18 dias, em um evento de lançamento das candidaturas de Alexandre Leite e Milton Leite Filho, Tarcísio voltou a elogiar a família do ex-vereador e classificou a relação como uma parceria.


