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A Banda transformou Chico Buarque em fenômeno nacional em 1966

O empate no festival da TV Record abriu caminho para uma canção que atravessou públicos, disputas políticas e fronteiras culturais.

A Banda transformou Chico Buarque em fenômeno nacional em 1966
Foto: Wilman Rodrigues da Silva/Acervo UH/Folhapress

Em 10 de outubro de 1966, Chico Buarque tinha 22 anos e ainda era apresentado como um jovem compositor ligado à arquitetura. Naquela noite, “A Banda” dividiu o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré. O resultado lançou Chico à condição de ídolo de massa e fez da marcha um dos maiores fenômenos culturais daquele período.

O empate atendia a uma expectativa do próprio Chico, mas as duas músicas alcançaram públicos diferentes. Defendida por Nara Leão, “A Banda” ganhou enorme circulação e passou a ser reconhecida como uma canção capaz de reunir ouvintes de origens e posições distintas. Em São Paulo, lojas chegaram a vender 50 compactos de Chico por hora.

Um sucesso de várias vozes

Duas semanas depois do festival, a Philips divulgou as vendas das três gravações da música: 80 mil cópias na voz de Nara, 20 mil na versão de Chico e 10 mil com o Quarteto em Cy. “Disparada” se aproximou das 60 mil cópias, enquanto “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, de Roberto Carlos, chegou a 40 mil. Nenhum dos lançamentos superou, porém, o recorde individual de cem mil discos do gaúcho Teixeirinha, autor de “Coração de Luto”.

O impacto comercial também alterou a percepção sobre a hierarquia da música popular. O Jornal do Brasil chegou a questionar se Roberto Carlos, então associado ao título de rei da jovem guarda, estaria perdendo espaço para Chico e Ronnie Von. O novo compositor passou a ocupar jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão, em uma exposição que contrastaria com seu perfil mais reservado na maturidade.

A febre chegou às ruas. Em Belo Horizonte, uma multidão estimada em 30 mil pessoas acompanhou Chico na rua Bahia, onde ele desfilou com quatro batedores, 35 policiais e sete bandas. O esquema de segurança era o mesmo usado pelo presidente da República. Dias antes, em Curitiba, o compositor havia encontrado 10 mil fãs na praça 29 de Março.

O sucesso também apareceu em situações inusitadas. Em Belo Horizonte, a bicheira Benedita do Amaral deixou a banca para procurar o compacto de Chico. Durante a entrega do disco em sua casa, policiais encontraram 122 listas do jogo do bicho sobre o toca-discos. A prisão foi noticiada em 20 de outubro.

De canção popular a símbolo público

A música atravessou ambientes religiosos, militares e artísticos. Em Minas, a Juventude Unida dos Santos Anjos da Guarda adaptou letras litúrgicas à melodia, que passou a substituir o iê-iê-iê em missas. A Banda Santa Helena, de Cabo Frio, também recorreu ao compositor para pedir mais recursos públicos para associações musicais.

Carlos Drummond de Andrade escreveu, em 14 de outubro, que a música e a banda traziam um sopro de amor e restauravam a confiança perdida. O texto seria incluído no livro “A Banda”, lançado em dezembro pela editora Francisco Alves, com as letras de Chico e o conto “Ulisses”.

A canção funcionou como ponto de contato entre pessoas que estavam em lados políticos opostos. Dom Helder Câmara dedicou dez minutos de seu programa televisivo à análise da letra. Nelson Rodrigues, descrito como desafeto do religioso, emocionou-se ao ouvi-la. Em novembro, “A Banda” passou a ser associada à frente ampla de oposição à ditadura, e Carlos Lacerda presenteou Juscelino Kubitschek com um compacto durante um encontro em Lisboa.

A marcha chegou também às instituições militares. Em Brasília, foi executada durante a troca de guarda do Palácio do Planalto. No Rio, os Dragões da Independência passaram a sair do Ministério da Guerra ao som da música, três minutos depois do toque de clarim, ao meio-dia das segundas e quintas-feiras.

Essa recepção contrastava com a censura sofrida por “Tamandaré”, samba de 1965 que questionava a imagem do patrono da Marinha. Meses depois, o mesmo compositor que tivera uma música barrada era celebrado em ritmo marcial.

A carreira além do estouro

O êxito não eliminou divergências. Maysa declarou que não gostava da linha melódica, embora elogiasse a letra. Augusto de Campos criticou, em 1967 e 1968, a “chicolatria” e contrapôs a obra de Chico à poética tropicalista. O próprio compositor rejeitava a ideia de que suas músicas precisassem servir a causas políticas específicas e afirmava que o tema social podia conviver com as canções de amor.

Nascido no Rio em 1944, Chico se mudou com a família para São Paulo aos dois anos, quando seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, assumiu a direção do Museu do Ipiranga. Em 1963, depois de uma temporada na Itália, matriculou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A música, porém, ocupou progressivamente o centro de sua trajetória.

“A Banda” foi a porta de entrada para um repertório que já incluía “Tem Mais Samba”, “Desencontro”, “Madalena Foi Pro Mar”, “Meu Refrão”, “Olé Olá”, “Pedro Pedreiro”, “A Rita” e “Sonho de um Carnaval”. Mais tarde, Chico aprofundou sua relação com Tom Jobim, compôs “Cálice” com Gilberto Gil, trabalhou com Caetano Veloso e encomendou arranjos a Rogério Duprat para “Construção”.

O próprio compositor revisitaria criticamente o episódio em “Agora Falando Sério”, de 1970: “Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá”. A passagem indica como o fenômeno de 1966 também se tornou matéria de reflexão dentro de sua obra.

Seis décadas depois, “A Banda” permanece como o marco que ampliou a popularidade de Chico Buarque e apresentou ao país um artista cuja música, literatura e posicionamento diante da história continuariam a se transformar.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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