A expansão dos sonhos de consumo, autonomia e mobilidade social entre segmentos populares passou a conviver com uma realidade de trabalho precário, endividamento e promessas de enriquecimento nas redes sociais. Essa combinação ajuda a compreender por que parte dessas pessoas se aproxima do bolsonarismo, enquanto outra rejeita a extrema direita e associa sua trajetória de melhoria à presença do Estado.
O conceito de classes aspiracionais descreve grupos populares que ampliaram suas expectativas e passaram a desejar mais — e a considerar que merecem mais. Essa transformação é apresentada como um indicador de desenvolvimento, mas também como fonte de frustração. Quando as aspirações encontram políticas de mobilidade social, podem produzir avanços; quando não encontram respostas, alimentam ressentimento e radicalização política.
Consumo, inclusão e precariedade
No Brasil, a teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais, nos anos 1990, e as políticas lulistas dos anos 2000, com crédito, transferência de renda, inclusão pelo consumo e ações afirmativas, ampliaram o repertório de desejos. O empreendedorismo apareceu como uma ponte entre a promessa religiosa de prosperidade e o discurso governamental de inclusão.
Entre 2009 e 2014, pesquisas sobre o consumo de classes populares de Porto Alegre registraram uma geração que passou a comprar produtos antes inacessíveis e a rejeitar doações e restos. O consumo funcionava como uma forma de reconhecimento e de circulação social. Os rolezinhos de 2014 expressaram a reivindicação de visibilidade e do direito de frequentar shopping centers e comprar por meios formais.
A crise econômica e política iniciada em 2014, porém, frustrou parte dessas expectativas. Entre 2016 e 2018, jovens e seus pais que haviam se beneficiado da abertura dessa janela de consumo aderiram, em parte, ao bolsonarismo. A revolta foi dirigida ao partido associado à ampliação das possibilidades que eles próprios haviam experimentado.
A promessa digital
Nos últimos cinco anos, as redes sociais passaram a oferecer novos modelos de sucesso. Pessoas com empregos mal remunerados, bicos ou atividades plataformizadas são estimuladas a imaginar riqueza, liberdade e reconhecimento por meio do empreendedorismo online. A exceção de quem prospera é apresentada como regra, embora a prosperidade econômica da maioria permaneça praticamente nula.
Nos últimos três anos, 700 influenciadores foram acompanhados diariamente em uma pesquisa. Em uma das mentorias observadas, um influenciador afirmava ter o código da riqueza de Elon Musk e prometia aos 90 mil participantes de suas aulas um lugar entre o novo 1% VIP da humanidade. Levantamentos citados na análise indicam que 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita.
A base desse universo é a crença de que disciplina, mentalidade e esforço individual determinam tudo. Quando o resultado não aparece, o fracasso tende a ser interpretado como insuficiência pessoal. Mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada aparecem entre as pessoas que buscam renda extra e home office, mas muitas acabam contraindo dívidas para comprar novas mentorias.
O desejo de se tornar empresário ou de trabalhar por conta própria não é reduzido à ostentação. Ele também expressa a busca por dignidade, tempo livre, conforto e controle sobre a própria rotina. A vontade de não obedecer a ordens e de deixar empregos ruins convive com o desejo, ainda predominante, de ter carteira assinada.
Estado, mérito e voto
A divisão política não decorre apenas de realizar ou frustrar aspirações. Também depende de como as pessoas percebem o Estado e o esforço individual em suas trajetórias. Quem associa a melhoria de vida à presença contínua de políticas públicas tende a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. Já aqueles que consideram suas conquistas fruto exclusivo do mérito, ou que continuam sem alcançar o que desejam, podem enxergar o Estado como ausente, ineficiente e interessado apenas em cobrar impostos.
Esse grupo é definido como autoritariado: parcelas das classes aspiracionais e pobres que aprenderam a se virar à margem do mercado formal e das proteções sociais. O termo descreve pessoas que podem se sentir oprimidas e, ao mesmo tempo, reproduzir a opressão. Elas combinam conservadorismo, autoritarismo e libertarianismo, defendem o esforço individual, desconfiam do Estado e desejam uma autoridade firme contra aquilo que entendem como privilégios.
A comparação social tem papel central nesse processo. As redes ampliam os horizontes ao mostrar pessoas ricas e aparentemente livres, mas a raiva costuma surgir de relações cotidianas mais próximas, como a percepção de que alguém em situação ainda mais vulnerável recebe benefícios sem trabalhar. Esse sentimento de merecimento precário leva quem conquistou pouco mais a tentar se afastar do estigma da pobreza e a transferi-lo para os mais pobres.
O bolsonarismo explora o desejo legítimo de autonomia ao transformá-lo em uma defesa da liberdade individual contra o Estado. Flávio Bolsonaro concentra sua campanha em temas como poder de compra, endividamento, tributação e violência. Pablo Marçal e Augusto Cury também dialogam com esse universo digital de prosperidade, mérito e autossuficiência, ainda que não ocupem exatamente o mesmo campo político.
O desafio colocado a Lula é conectar-se com trabalhadores que buscam autonomia por meio do empreendedorismo e já não veem a ação coletiva ou a democracia como caminhos evidentes para melhorar de vida. A tendência libertária não significa, necessariamente, rejeição completa ao Estado: ela também nasce da percepção de que o Estado esteve ausente.
Por isso, a disputa envolve mais do que novas narrativas eleitorais. Em um mercado de trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado, a questão é formular políticas públicas que preservem o desejo de autonomia e conforto e, ao mesmo tempo, ampliem a proteção oferecida às classes aspiracionais.


