BELO HORIZONTE — Belo Horizonte foi reconhecida como o terceiro maior Carnaval do Brasil em 2026, com blocos que tiveram espaço, segurança, recursos e estrutura. Mas, quando a festa termina, a cidade revela outra dimensão: 16.115 pessoas estão sem casa, conforme dados do CadÚnico em 2026, o terceiro maior número entre as capitais do país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro.
A experiência de mais de 30 dias na capital mineira é narrada a partir da comparação com Porto Alegre. A autora, que se define como refugiada climática e não como nômade, identifica semelhanças entre as duas cidades, mas também diferenças na forma como a desigualdade aparece no cotidiano.
A paisagem muda em menos de um quilômetro
Hospedada no baixo centro, ela descreve uma área de ruas cheias, comércio popular, sacolões, lixo e muitas pessoas vivendo em situação de rua. O centro de Belo Horizonte, segundo sua avaliação, tem pelo menos três vezes o tamanho do centro de Porto Alegre e abrangeria regiões como o Centro Histórico, a Cidade Baixa e a Floresta.
A mudança de cenário ocorre ao longo da avenida Olegário Maciel. Em menos de 1km, o entorno passa de uma área marcada pelo comércio popular e pelos resíduos nas calçadas para uma região associada aos bairros mais ricos da cidade. No percurso diário, a autora também passa diante de uma sede da Igreja Universal e observa a transformação da paisagem nas proximidades da Praça Raul Soares.
É ali que pessoas tomam banho e lavam roupas no chafariz. A cena é distinguida da ocupação recreativa da Praça da Estação durante a chamada Praia da Estação, evento em que grupos carnavalescos fazem batucada e entram na água. Para a autora, no entanto, o uso do equipamento por pessoas em situação de rua está ligado à higiene corporal e à lavagem de utensílios. Ela afirma que a polícia não interfere.
As mesmas pessoas, relata, podem ser vistas pedindo dinheiro em frente ao Mercado Novo ou montando barracas em esquinas e sob marquises. O texto associa essa presença à dificuldade de circulação entre diferentes áreas da cidade e à distância social entre o baixo centro e o bairro Lourdes, comparado ao Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
A cidade que recebe a festa
A relação com Minas Gerais começou a se fortalecer depois das enchentes no Rio Grande do Sul. A autora visitou Mariana, que, assim como Brumadinho, viveu uma catástrofe associada à mineração, em busca de referências para compreender a experiência vivida no estado gaúcho.
No Carnaval, voltou a Belo Horizonte com amigos. Encontrou muitos turistas, especialmente gaúchos, blocos nas ruas e receptividade. Em agosto, também acompanhou eventos como o Honk BH, a Virada Cultural e outros festivais. A estrutura oferecida para a folia urbana aparece como sinal de que a cidade reconhece o Carnaval e outras manifestações culturais como parte de sua identidade.
Essa capacidade de organizar grandes eventos contrasta, no relato, com a situação de quem permanece nas ruas quando a música termina. A gastronomia, os bares e a hospitalidade atribuídos à cultura mineira convivem com a falta de moradia e a fome. A autora resume essa contradição ao observar que uma cidade conhecida pela generosidade à mesa ainda tem pessoas sem casa e sem condições básicas.
Saúde pública e mineração entram no mesmo quadro
A desigualdade também aparece na experiência da autora em uma unidade de saúde. Na segunda semana em Belo Horizonte, ela precisou usar uma UPA. Descreve um posto sem médicos, uma unidade lotada, pessoas nos corredores e seis horas de espera até o atendimento. A avaliação registrada é de que a saúde pública agoniza.
Na televisão da unidade, eram exibidas candidaturas das eleições daquele ano. Eduardo Cunha concorria a deputado federal; Nikolas Ferreira, à reeleição para o mesmo cargo; e Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, concorria à Presidência.
O relato também relaciona política, mineração e riscos ambientais. A autora menciona que Nikolas Ferreira teria pedido ajuda a Daniel Vorcaro para liberar ativos de mineração em uma área próxima a Ouro Preto, cidade que ela visitou, colocando milhares de pessoas sob risco de um novo desastre ambiental. Juiz de Fora é citada por ter sofrido alagamentos semelhantes aos do Rio Grande do Sul em março e abril daquele ano.
A mineração aparece ainda como responsável, no texto, por remover partes da paisagem montanhosa e afetar a qualidade de vida da população. A autora aproxima as situações de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul pela combinação entre eventos climáticos, impactos ambientais e decisões políticas que, em sua avaliação, deixam pobres, mulheres e populações atingidas por barragens, enchentes e mineradoras fora do centro das prioridades.
O que permanece quando a fanfarra acaba
Apesar das contradições, a autora identifica pontos de resistência nas ruas: mulheres, ciclistas, trabalhadores e grupos que se reúnem em praças. Essa presença é descrita como uma forma de conforto e estímulo diante de um cenário político considerado longo e exigente.
Ao deixar Minas Gerais para votar em Porto Alegre, ela afirma que a eleição definirá os caminhos seguintes e chama atenção para a disputa pelo Senado. A conclusão retoma a imagem do Carnaval: seja em Minas Gerais ou no Rio Grande do Sul, é preciso lembrar de quem permanece nas ruas depois que a festa acaba.


