A saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2025, mantida em 2026, é apresentada como um exemplo de tema que desaparece quando o debate eleitoral é organizado quase exclusivamente em torno do ajuste fiscal. O relatório mais recente da FAO aponta prevalência de subnutrição abaixo de 2,5% da população, enquanto 2022 terminou com níveis graves de insegurança alimentar, registrados por diferentes metodologias.
A questão, para a jornalista Ramênia Vieira, não é negar a importância de discutir dívida, gasto público ou resultado primário. O problema está em tratar o corte de despesas como a única escolha verdadeiramente racional diante da eleição presidencial. Essa abordagem, segundo a análise, converte uma posição econômica específica em aparência de consenso e empurra para a margem assuntos que também produzem efeitos concretos sobre a vida da população.
Entre os temas deixados em segundo plano estão pobreza, fome, emprego, renda, saúde, educação, moradia, emergência climática, violência contra mulheres e população negra, soberania tecnológica e econômica, relações internacionais e preservação das instituições democráticas. A definição de quais políticas serão mantidas, abandonadas ou ampliadas também é uma decisão econômica, ainda que não seja expressa apenas em indicadores fiscais.
A disputa para além das contas públicas
A análise também rejeita uma leitura da eleição de 2026 baseada em equivalência automática entre os candidatos. Jair Bolsonaro foi condenado por uma tentativa de ruptura institucional, e Flávio Bolsonaro apresentou sua candidatura como continuidade do legado político do pai. O candidato ainda prometeu reverter decisões judiciais envolvendo a família e atacou ministros do Supremo.
As relações com os Estados Unidos aparecem, nesse quadro, como outro componente concreto da campanha. Denúncias de interferência externa, sanções e tarifas estadunidenses entraram no debate brasileiro. Também foi divulgado um documento que vinculava medidas comerciais dos Estados Unidos a exigências ligadas ao cenário político do Brasil; Flávio Bolsonaro negou receber ajuda de Donald Trump.
O argumento não elimina a necessidade de cobrar Lula por sua ausência nos debates, nem impede críticas à política fiscal, à administração do governo, às promessas não cumpridas e a outras contradições. A exigência dirigida à imprensa é que a mesma disposição analítica seja aplicada aos diferentes projetos políticos, às trajetórias de seus representantes, às alianças que estabeleceram e aos compromissos assumidos perante as instituições democráticas e a soberania nacional.
Quem define a agenda pública
A crítica sustenta que o jornalismo não cumpre sua função ao fabricar uma simetria entre posições distintas apenas para aparentar neutralidade. Ao selecionar os assuntos que recebem destaque em manchetes, editoriais e entrevistas, os meios de comunicação participam da definição da agenda pública.
Por isso, apresentar o equilíbrio fiscal como a grande questão nacional não seria uma descrição inevitável da realidade, mas uma escolha editorial. O mesmo ocorreria ao transformar diferenças de trajetória, projeto e consequência em uma disputa abstrata entre situação e oposição.
A responsabilidade da imprensa, nessa perspectiva, é oferecer ao eleitor contexto para avaliar o que está em jogo. O debate público se torna limitado quando decisões editoriais, econômicas e políticas são apresentadas como se fossem apenas conclusões neutras e obrigatórias.



